Não é tudo fácil, mas é tudo amor.     – What Su Wants

Não é tudo fácil, mas é tudo amor.    

Deixem-se de deslumbres. Não é fácil. Não é sempre uma graça. Não é simples ou pintado a aguarela. Tudo brilhante ou cantado em uníssono. Às vezes é mais pianíssimo. Porque não é um Instagram bonito. Ou uma família perfeita. Ou uma felicidade permanente. Ou tudo sorrisos e uma alegria consistente. Mas é tudo amor.

 

Primeiro, estamos grávidas. E brilham os olhos, a pele, as unhas, o cabelo. Que depois cai. Porque nasce um bebé. E antes diziam-te «aproveita para dormir». Mas como, se só faço xixi? E voltamos para casa de ser novo ao colo. Nova vida. A dois, a três ou a quatro. Cada um com o seu retrato. E é tudo amor. Mas também dor. Nas cicatrizes e nos pontos. E vincam-se olheiras. Rugas de novas expressões. E, se agora vemos os pés e sentimos a lombar, também colhemos novas dores, mamilos a latejar. Uma cabeça pendurada, que beija, que embala, que palpita. Porque não é tudo graça, nem tudo fácil. Mas é tudo coração. E dói. E as hormonas dançam. Aposto que samba. E choramos. E pernoitamos. E assim ficamos. E apetece fugir para a banheira e viver lá a semana inteira. Porque somos mães, mas também humanas. E não é tudo fácil. Não é tudo graça, mas é tudo amor.

 

E eles crescem. E cresce o medo. Da cabeça que bate, do pão que engasga, da febre que faz corar bochechas e corações partidos. Arrefecidos. Porque nada dói mais que a dor de um filho. E não é tudo graça. Deixem-se de deslumbres, mas é tudo amor. E a mão que acariciava a barriga agora faz festas naquela cabeça pequenina. Indefesa. Que só quer a nossa presença. Que se enrosca num colo de mãe cansado e dorido. A pé. A todas as horas da madrugada. E, às vezes, não é fome nem é nada. É só amor. Do filho pela mãe e dela por ele, que é mãe, mas é humana. E fecha os olhos e grita baixinho, porque só queria cama.

 

E eles olham. Ali. No meio da sala sentados, eles olham. No meio da creche à espera da mãe que chega. E aperta o coração antes só nosso. Antes só egoísta. Antes sem medos. E, agora encolhido, o nosso coração chora. Porque a mãe tem que ir embora. E não é tudo fácil, não é tudo graça, mas é tudo amor. E o nosso corpo cede. Cai por terra. E fraquejam as pernas que julgávamos eternas. Os braços estendidos desamparados. Porque a mãe é humana. E não há jogo mais difícil que este de fintar a saudade. De viver com ela cravada nas horas longas do dia. Porque a mãe vai embora, mas só quer voltar. Porque a mãe humana que sai e que areja, no alívio das horas sem filho, tem saudade. E vontade. Porque já não é só uma, é dois, ou três ou quatro. Cada mãe, com o seu retrato. Mas a mulher que é mãe nunca mais é só uma. Nunca mais vive sem dor. Mas também transborda de amor. Para sempre, será amor.

 

E, por isso, erramos. E escutamos. A tia, a prima, a outra. Os conselhos disparatados que às vezes confundem. Presumem. Desiludem. E porque isto faz mal. E aquilo é perigoso. E a mãe encolhe-se. E encolhe o seu filho, que protege em demasia. Que enlaça em sufoco. Que esmaga de amor e medo. E desassossego. Da perda. Do tempo. Do espaço que a vida nos obriga a ter entre nós. Porque eles crescem. E não tarda seremos avós.

 

E nenhum colo é eterno.

 

Deixem-se de deslumbres. Não é fácil. Não é sempre uma graça. Mas é sempre, sempre amor. É sempre amor.

 

 


4 Comentários
  • Margarida Luz
    Dezembro 12, 2018

    Fantástico texto. E é tudo isso, uma bipolaridade sem igual, que nos faz querer fugir quando ao mesmo tempo so queremos estar, que nos faz chorar quando estamos a sorrir, que nos destrói enquanto nos constrói. Passo uma fase de um cansaço extremo, de noites a cuidar com carinho birras furiosas, de trabalho interrompido por queixume constante, mas não quero mais nada nas horas de cada dia a não ser ver aquela carinha lá perdida na manta da creche a brilhar quando me vê. E não quero mais nada senão passar as manhãs, as tardes e as noites perto, muito perto da minha eterna bebé. Ganha o amor no meio de tudo o que não presta. Parabéns pela escolha das palavras.
    Beijo
    Margarida

  • Cátia Alpedrinha Caetano
    Dezembro 13, 2018

    Que lindo♥️

  • Leticia Cunha
    Dezembro 13, 2018

    Ai é tão isso ❤️ minha deusa das palavras!

  • Rita
    Dezembro 14, 2018

    Podia ter sido eu a escrever isto… Não tenho tanto jeito para as palavras mas o sentimento é este!

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