a puta da velhice.

Não queremos chegar a velhos. Não queremos ver os nossos chegar a velhos. Envelhecer requer sabedoria. Requer paz de espírito. Requer sensatez e jogo de cintura. E quem é que consegue chegar a velho, chegar lá em paz, se vivemos numa pressa desgovernada? Não queremos chegar a velhos, porque não temos tempo.

Vivemos a culpá-lo. A maldizê-lo. Não há tempo para encontros. Não há tempo para abraços. O tempo não estica. Não se multiplica. E corre a quilómetros de distância. Domingo a domingo. Sem intervalo. E não há tempo. Para os nossos. Para chegar a velho.

Mas o tempo passa. E trespassa. Sobretudo quando o sabemos já curto. Quando a puta da velhice está ali. Cara a cara. Sem trégua que a torne amena. Sem tempo que a faça crescer. E então os nossos são velhos e nós lá chegaremos e ficou tanto por dizer. Tanto por crescer. Porque o tempo não chegou, mas passou. Qual flecha em direcção a um alvo tosco e gasto. E que se perdeu no caminho.

E os nossos avós morreram. Ou morrem-nos. Já não correm atrás de nós. Já não se lembram da medicação. E os nossos pais estão cansados. Ou cansam-se. Já se levantam a custo. Com dores nos joelhos, nas articulações. E não são eternos. Só o serão em nós. No nosso corpo que também tem rugas, maleitas e peso. Mais peso. Porque a puta da velhice não pausa o tempo. E assusta. Mete medo.

E, quando olhamos para trás, já sendo velhos, choramos o que não fizemos. Os almoços onde, em família, não comemos. Os sorrisos que, entre lamúrias, perdemos. E é o tempo o culpado. O desgraçado.

Mas a culpa é nossa. Toda nossa. Por trocarmos as voltas ao amor. Por não lhe guardarmos o melhor lugar à mesa. Porque, a correr, mal nos sentamos. E fica sempre tanto por fazer. E os nosso morrem. Vão morrendo. E a saudade fica, sem prateleira onde se guarde. Sem lugar onde se arrume. A ganhar pó e ferrugem no nosso coração velho.

Por isso sentem-se. Comam. Abracem. E riam. Apertem a mão de quem vai, devagarinho, a caminho do cemitério. Porque a puta da velhice é tão certa como a morte. E, se lá chegarmos, será uma sorte.


2 Comentários
  • Margarida
    Outubro 13, 2018

    Este é o tema! É o tema do qual fujo a 7 pés, sobre o qual me apressou a mudar o assunto quando valado, o que empurro para fora dos meus pensamentos quando me quer assombrar. É o tema que me põe as lágrimas mais fáceis cara abaixo e o que teimo na minha mente em contrariar. Agarro-me a uma ideia infantil de que seremos eternos, que os meus pais serão eternos, que serei a eterna mãe para a minha eterna filha. Quem morre é envelhece são os outros, coitados, estão velhos. Coitada, está tão envelhecida ou já não é a mesma. Fecho os olhos às vezes que os meus pais se queixam das costas ou da falta de vista e tento acreditar que nada lhes vai acontecer. Nada lhes pode acontece. Não quero deixar. A puta da velhice é o meu maior medo. A puta da velhice já me levou todos os queridos avós, tramou-lhes as voltas e tirou-lhes tudo até deixarem de ser eles. Fê-los crianças quando eram velhos, Fê-los tontos quando não o eram, Fê-los doentes quando os queria com saúde. Raios parta à velhice, e à morte, que as quero longe de mim. Raios parta o tempo, o maldito que me assombra a agenda, que me assusta quando vejo a minha filha crescer. Esse tempo que não estica e que tarde o valorizamos. Ai, já me puseste a chorar.

  • Anónimo
    Outubro 13, 2018

    Que lindo texto prima fico de lágrima no olho. Isto é tão verdade para quem para quem ama sua família ❤❤❤❤❤❤💚

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