A minha prima Joana

Contamos trinta e dois. Ela nasceu no dia depois do meu baptizado. Quis dar um ar da sua graça e interromper-me a festa. De qualquer modo também só estávamos a visitar o convento de Mafra. Que raio de plano para um dia de baptismo. Ao longo deste percurso já fomos tudo juntas. Professoras. Irmãs. Donas de lojas que vendiam tudo. Nadadoras salvadoras. E peritas em sorteios. Pintámos paredes com água. Inventámos jogos de cozinha que metiam os sem fronteira a um canto. E até criámos a marcha dos anos da Joana. Amigas de infância e amigas depois. De cabelo curto e depois comprido, ou vice-versa. Contamos trinta e dois anos de guerras e lágrimas. De disparates próprios da idade. De rivalidades e namorados partilhados quando se aprendia o que era dar a mão e ir ao cinema à noite. Mas contamos tudo juntas, porque o trilho se fez acompanhado. No bom e no mau. Mas sempre assim. E contamos tanta coisa boa. Tanta partilha. Doze anos de escola a dividir secretária. Pelo menos uns trinta a dividir as dores e as mágoas. E as coisas boas. E agora os filhos. Contamos trinta e dois. De uma amizade ímpar, nem sempre adocicada, tantas vezes incompreendida, mas nossa. Provando que os laços de sangue valem mais que tudo. Porque serás para sempre a minha prima Joana. A minha amiga Joana. À distância de um telefonema. Na porta ao lado se assim for preciso. E isso é inquestionável. Dê por onde der. E algumas vezes já deu para o torto, mas não tinha graça nenhuma se não fosse assim. Porque não seríamos nós. Caprichosas e de pêlo na venta desde cedo. Muitos Parabéns. Que sejam, pelo menos, mais trinta e dois. Depois, se calhar, vamos deixar de conseguir subir as árvores da muralha.

 

Gosto muito de ti.


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