a pressão social da amamentação

Antes de começar este texto sublinho, desde já, que cada bebé é um bebé e cada experiência de maternidade é única, mesmo que a mãe seja a mesma. Por isso, cabe a cada um decidir o que pretende ou não fazer e que caminho seguir. Este é, somente, o meu.

 

Amamentei o meu filho três meses. Não amamento há uma semana. O desmame foi forçado. O Frederico tem problemas de pele desde os seus primeiros quinze dias de vida e depois de ter estado um mês a «experimentar» corticóides que muito pouco faziam, mudar detergentes, lençóis e mantas, roupas de algodão orgânico e trinta por uma linha, constatámos que a única constante que poderia despoletar as crises de dermatite atópica, severas e assustadoras, era o leite materno. Nas urgências, pela segunda vez, disseram que pode existir uma hipersensibilidade à proteína do leite de vaca e que, para que continuasse a amamentar, teria que a retirar por completo da minha alimentação. Teria que estar, pelo menos, durante três dias a fazer leite hidrolisado e, após isso, passar novamento ao leite materno desde que eu “cumprisse os requisitos alimentares”.

 

Ponderei muito, mas decidi parar com a amamentação.

 

Foi uma decisão difícil, mas pesou isto:

– Não tenho a certeza se é efectivamente a proteína do leite de vaca. Pode ser qualquer outro alimento e passaria a vida inteira em testes e a correr o risco de o meu filho ter crises em que parece que foi queimado, tal é a vermelhidão da pele dele e o desespero em que fica;

– Não quero passar, novamente, por um desmame forçado caso se constate que apesar de eu mudar a alimentação, ele não melhora;

– Não quero continuar a sentir-me frágil, esgotada, culpada.

 

Acredito que amamentar é um acto único de amor e eu adorava dar maminha ao meu filho. Foi sempre um processo fácil, sem dor, sem dificuldades e eu tinha leite para dar e vender, sendo que ele engorda a olhos vistos.  Mas não me vendam a história das defesas e do ser mais saudável por isso. Em três meses, conto os dias em que este miúdo teve uma pele limpa de alergias. Já passou por uma bronquiolite e por dez dias de nariz tapado, sem, no entanto, andar sequer na rua ou em mudanças de temperatura. O leite materno é bom mas não é um milagre. Há bebés com a idade dele, a leite artificial desde o nascimento, sem nada a apontar. Sublinho, mais uma vez, que as coisas são o que têm que ser. Não há receitas, nem milagres, mas custa-me lidar com a pressão social associada à amamentação exclusiva. Parece que só somos boas mães se amamentarmos os nossos filhos. De preferência, de forma exclusiva durante seis meses porque a OMS assim o considera.

 

«Vais parar porquê? Muda a alimentação.»

«Isso não é razão para deixar a mama.»

«Quebra-se o vínculo mãe/bebé sem necessidade.»

 

Confesso que ouvir isto, não interessa de onde vem, dói. Confesso que ouvir este  tipo de sentenças, atiradas à cara numa fase emocionalmente instável, dói.  Assim como as mamas em pedra. Assim como um filho que não pode comer no teu colo porque se sente confuso. Assim como veres outras pessoas a alimentá-lo. Algo que era um prazer e um momento exclusivamente teu. Assim, sem preparação e de repente. Tudo isso dói. Mas a decisão é minha. E posso querer ser egoísta e preferir também o melhor para mim, porque sei que só terei um filho feliz se eu me sentir tranquila e sem medos a cuidar dele. Algo que, se continuasse a amamentar, não aconteceria.

 

Sim, parei a amamentação. Um processo doloroso física e emocionalmente e que ainda estou a ultrapassar. Mas, não me digam que o meu filho será menos amado, protegido, ou feliz por isso. Sempre disse que amamentaria se e até quando isso fosse confortável e bom para ambos. Deixou de ser.

 

A sociedade que me crucifique, se assim quiser, porque eu sinto que tirei um peso de cima das costas. E que acabem os fundamentalismos. Chega desta coisa nova da «ditadura da mama». Cada mãe saberá, certamente, o que é melhor para si e para o seu filho. E temos que nos sentir tranquilas com as decisões que tomamos e não julgadas em praça pública.

 

Aqui em casa, estamos os dois mais felizes.

 

A propósito, vou doar todo o leite que tenho congelado ao Banco de Leite Humano. Fiquei muito feliz por saber que o recebem. Espero que engorde muitos bebés.


2 Comentários
  • Ana Rita Carvoeiras
    Maio 4, 2018

    Por aqui temos um bebé com 4 meses que desde o mês e meio de vida faz um leite hidrolizado porque detetámos que estava a fazer uma alergia à proteína do leite de vaca.
    O desmame não foi fácil, maioritariamente, porque desde cedo senti que esta sociedade em que nos inserimos quase que nos obriga a amamentar. Mas… e nestes casos?! Será que ninguém fala que nem sempre é possível amamentar um filho?! Que existem muitas mulheres que desistem de amamentar por dor, por incompatibilidade, por medo, enfim…
    Neste momento sou muito mais feliz por não amamentar… tenho um bebé mais saudável e cheio de vida!

  • Helrba
    Agosto 4, 2018

    Infelizmente as pessoas opinam demais na vida das outras. Todas as que já tiveram um filho, adoram dar uma de doutoradas da amamentação, da educação. E tudo isso só serve para nos pressionar e nos confundir ainda mais.
    No centro de saúde onde vou, a enfermeira explica que esta pressão advém do facto de muitas mulheres escolherem não amamentar os seus filhos por razões estéticas. Não querem estragar as suas maminhas e querem a liberdade de começar logo a treinar para perder o peso da gravidez. Então, toda aquela que se demonstra com vontade de amamentar, é espremida até ao tutano. Não há necessidade.
    Estar bem e feliz é meio caminho andado para ver o seu filho bem e feliz. O nosso bem estar repercute no deles. Continue a fazer o melhor para si, porque isso também é o melhor para ele.

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