Quando formos velhinhos. – What Su Wants

Quando formos velhinhos.

Um dia, vamos sair os dois de manhã, engelhados e cheios de artrite, e vamos ao mercado comprar fruta. É sábado e é Outono. Vestimos os casacos quentes, porque os ossos nos doem, e calçamos sapatos ortopédicos. E é sábado. Não que isso faça diferença quando se é reformado e todos os dias são iguais. Todos os dias se fazem sem minutos ou relógios de cuco. E só a velhice nos mostra que o tempo acaba. Mas não nesse sábado. Nesse, vamos ao mercado. Eu vou querer comprar salame e tu vais dizer-me que os meus diabetes estavam terríveis na última análise. Que estou a um pequeno passo da insulina. E os meus passos já são curtos. Eu vou revoltar-me, porque tu sempre foste mais guloso que eu e tens uma saúde de ferro. Vais dizer que foi do ténis e vais culpar-me por ter sido preguiçosa. Mas eu sempre preferi ler livros. Vamos discutir todo o caminho e vais irritar-me ao ponto de eu ir mais à frente. Sem bengala e sem ti, minha muleta. Mas tu vais apressar-te, agarrar no carrinho que, no regresso, será ainda mais pesado e dizer «Deixa de ser chata, eu levo isso!». Tal e qual como fazes hoje, quando insistes em carregar todos os sacos e eu me surpreendo com a tua força. «Magrinho, mas forte», digo-te sempre. E, nesse dia, nesse sábado, também direi, para depois me queixar da minha coluna, da barriga das pernas que me dói só por andar meio metro e vou dizer que estou enrugada e gorda, porque há coisas que nunca mudam. Mas trago o salame. Porque talvez esteja a poucos dias do fim e pelo menos morro feliz. Tal como começo todas as refeições pela sobremesa, porque nunca se sabe se me dá uma síncope a meio do almoço e não será justo não ter comido a melhor parte. Por isso, nesse dia, vamos sair de manhã e vamos ao mercado. É sábado. E vimos de lá com o carrinho cheio. De afectos. Porque durante a tarde, recebemos os filhos e os netos. E eu faço a minha tarte de banana, enquanto tu lhes cantas canções.

Porque a vida é curta. E corre na idade adulta.


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