O primeiro dia de creche e o fechar de um ciclo.

Estava um nevoeiro denso. Levantei-me a custo, com uma angústia entalada na garganta. Bebi água, mas não melhorou. Não se via uma nuvem. Não se via um carro. A vida parecia ter congelado. O tempo parecia ter parado, como eu tanto desejara ao deitar-me. «Dá-me só mais um bocadinho de tempo, Tempo», mas ele ignorou.

Levantei-o da cama a custo e dei-lhe um biberão que devorou em cinco minutos, de sorriso fácil, palmadinha na barriga e dentes à espreita. «Estás tão crescido, filho!». Abracei-o como se o fosse perder. Cheirei-o para que o seu perfume perdurasse nas minhas narinas habituadas a tê-lo por perto. A jeito de elixir quando me sentisse a cambalear. Preparei a mochila com o nome escrito. Estremeci ao certificar-me de que era este o momento. Sem desculpa que o adiasse.

Estacionei o carro. O coração batia a jeito de soluço. Contive a emoção ao atravessar o portão e acreditei, tolamente, que uma fotografia me mostraria feliz. Tinha um pai ao lado a dar-me a mão. Literalmente a dar-me a mão, porque me sabia a precisar de apoio. Também eu a querer colo.

Eram só duas horas de ausência. Só duas horas. Mas esse a quem chamamos Tempo, que quando se quer longo se torna curto, trocou-me as voltas. Teimava em não passar, quando, durante quase oito meses, soube rir de mim e correr. Duas horas que pareciam duas vidas. A minha e a dele. Separadas sem que soubesse porquê.

E nada disto faz sentido visto à distância, mas no momento somos mais pequenos que eles. E nenhuma mãe dá o seu filho a outro colo sem sentir que o seu se encolhe e mirra, qual passa de uva abandonada. Chorei, não é nenhuma vergonha admiti-lo, por ter fechado um ciclo. E não chorei por o sentir mal entregue, abandonado ou triste. Saltou do meu abraço para outro com a tranquilidade e alegria que lhe são características. Chorei porque deixámos de ser só nós os dois. Nas manhãs sem horas, nos almoços cantados, no aconchego dos dias.

É assim a vida. É assim isto de crescer. E, a uma semana do meu regresso ao trabalho, cada um com o seu «regresso», só me apetece implorar ao Tempo que se demore. Que se atrase e se perca no caminho. E que me dê o dobro das horas com o meu menino.

Deve ser isto que todas as mães sentem no dia em que fecham os olhos e, num ápice, tudo passou. A gravidez e as dores. O parto e o medo. O recém-nascido e a dúvida. E voltamos a ser nós no nosso trabalho, só que com eles à nossa espera. Na creche, na avó, na tia ou na prima. Mas à nossa espera.

O meu filho cresceu. Mas eu senti-me tão pequenina.

E, agora, acho que ainda vou amar mais o fim-de-semana.

 


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