Licença Alargada

Como o prometido é devido, aqui vai: Licença Alargada. O nome parece logo que a coisa dura e dura e dura, assim a modos que um ano. Mentira. Dura no máximo três meses. Mas vamos por partes.

Comecemos por afirmar a vergonha que são as licenças de parentalidade em Portugal. Ou subsídio parental, como lhe chamam. Em suma, baseiam-se mais ou menos nisto.

  • 4 meses (mãe e s/partilha) pagos a 100%, ou
  • 4 meses (mãe) + 1 mês (pai) pagos a 100%, ou
  • 5 meses (mãe e s/partilha) pagos a 80%, ou
  • 5 meses (mãe) + 1 mês (pai) pagos a 83%.

Portanto, no fundo, entre mãe e pai, 5 meses são razoáveis, na opinião do Estado. Se quiserem um pouco mais (1 mês), levam com um corte de 20%. Se quiserem a tal alargada, que pode ir de 1 a 3 meses, o Estado paga, espantem-se, 25%.

Ora, então, vamos tirar algumas conclusões sobre isto:

– Na vida de um bebé, cinco meses passam mais ou menos a esta velocidade: deitamo-los na cama de barriguinha cheia para dormir e puf, no dia a seguir acordam com quatro meses feitos. Passa realmente muito rápido e com quatro meses eles ainda não fazem NADA. É, precisamente, a partir dessa idade que começam a interagir, sorrir, rebolar, fazer birras de sono e um mundo de coisas. Umas boas, outras nem tanto. Portanto, os pais não podem assistir a isto na fila da frente. Estão, antes, por vontade de uma segurança social que pagam todos os meses mas que, lamentavelmente, não lhes dá mais do que isto, a ver num camarote longínquo, à distancia de uma educadora. Ou avó. Ou o que seja.

– Pai e Mãe têm, somente, uns meros quinze dias (obrigatórios para o pai no pós nascimento – 5 e depois 10 optativos) de convívio diário com um o bebé. Juntos. Após isso, à mãe o que é da mãe e ao pai o que é do pai. Logo, viver em comunhão familiar só ao fim-de-semana (para quem tem fins-de-semana). Não há cá licenças conjuntas, mas sim partilhadas. Amanhem-se sozinhos nos vossos meses.

– 25% é um valor absolutamente ridículo. Ridículo, volto a dizer. E isto funciona quer se tenha um vencimento mensal de 5000 ou 500 euros, porque, convenhamos, as pessoas gerem as suas vidas, e respectivas despesas, em função do rendimento que têm. E ninguém vive feliz com um quarto do salário. Portanto, o Estado não chega a pagar, em três meses, sequer 80%, que é o que paga na opção 5 meses. É ridículo, não me cansarei de dizer. E soa a esmola.

Não é preciso fazer comparações com os países nórdicos para perceber o quanto tudo isto é absurdo. No mínimo, uma mãe deveria poder ficar até ao primeiro ano com o seu filho. Até que se faça toda a vacinação. Até que o seu sistema imunitário esteja mais desenvolvido. Enquanto se passa por uma fase crucial de desenvolvimento cognitivo e motor. Isto, claramente, se  mãe e pai o desejarem. Também sei e acredito que exista quem prefira retomar rapidamente as suas rotinas. Nada contra. No entanto, basta ver a quantidade de doenças que os miúdos apanham mal vão para as creches e berçários para perceber que seria, de todo proveitoso que mãe e pai não andassem constantemente a faltar ao trabalho. Para quem trabalha por turnos, por ex., evitaria até o prejudicar dos colegas que não têm filhos e que se vêem obrigados a tapar os buracos dos que têm. Mais tempo em casa importaria num retardar das idas para a escola e, portanto, num evitar do infectário. 

No meu caso, não tive grande opção. Não podia escolher a licença partilhada, uma vez que, no mês em causa, o Pedro entregaria a tese de doutoramento. Era, pois, impossível que ficasse com o filho durante o mês de Julho. Na creche onde o inscrevi não existia vaga para esse mês e, em Agosto, a mesma estaria encerrada. Optei, pois, por sugar a minha poupança até ao tutano e tentar sobreviver a 25%. Graças a Deus ainda não foi preciso irmos comer à casa das mães, mas muito têm ajudado, ainda assim. Os sacrifícios fazem-se, mas não sou rica, nem louca, nem corajosa. Sou só racional. Foi a opção mais sensata. Assim, entrará na creche em meados de Setembro, numa adaptação progressiva (minha e dele e não vou demorar-me neste assunto para não chorar), mas ficará sempre a sensação de que muitos mais meses poderíamos ficar e aprender juntos. Em claro proveito dos dois.

E, por fim, acrescento ainda, que por acaso o meu filho já não mama. Não deixa de ser curioso que a OMS defenda a amamentação exclusiva até aos seis meses, mas que no nosso país não se criem condições para o efeito. É que uma mãe trabalhar e amamentar é uma dose do caraças. Sacar leite nos intervalos do trabalho e correr para casa a tempo da maminha do lanche. A bomba? Melhor amiga, sempre na mala. Não faz sentido. Duas horas de redução de horário servem para quê? Muitas  vezes nem para o caminho.

Enfim.

É o país que temos. E é a licença que eu tenho. Que de alargada pouco tem.

 

Para quem estiver interessado num maior esclarecimento sobre prazos e valores, futuras mamãs por exemplo, segue o link da segurança social.

http://www.seg-social.pt/subsidio-parental


3 Comentários
  • Anónimo
    Agosto 31, 2018

    Querida Susana. Acertaste em cheio em tudo o que escreveste. Eu infelizmente pertenço ao club dos 4 meses e ainda amamento em exclusivo a Francisca. Está quase quase com 5 meses e que duro tem sido! Acordar 1h mais cedo para tirar leite + toda a logística que é tratar de uma bebe de 4 meses antes de sair para trabalhar. Já para não falar que a hora do almoço é feita a comer em 5 minutos e o resto passada a tirar leite. Amamentação exclusiva até aos 6 meses? Realmente é um privilegio que não é para todos. Infelizmente é a vida real de muitas mães destes pais (no qual eu me incluo) e já posso dar-me por satisfeita pela Francisca ficar com os avós e poder ir vendo cada conquista dela pela caixinha mágica que se chama telemóvel. Beijinhos minha querida e coragem com o regresso. Custa muito mas com calma tudo se faz!

  • Susana Ambrósio
    Setembro 3, 2018

    Poderia ter sido eu a escrever este texto. Estou c a Rita licença alargada, começo a trabalhar a 17 de Setembro, e a minha bebé ficará com a minha sogra. 😘

  • Anónimo
    Setembro 4, 2018

    É muito triste….o nosso bebé já está com 3 meses e não consigo sequer imaginar deixa—lo para ir trabalhar. Irei recorrer à licença alargada. Os 25% são mesmo uma anedota amarga…vergonhoso

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