Cabelo, Manchas e Mamas                     

Devem existir milhares, ou milhões, de textos sobre os queixumes da gravidez, do parto e do pós. Este não pretende ser uma mar de lamúrias, mas, somente, um desabafo de quem tem sentido no corpo as implicações de ter um filho. Físicas. As emocionais são tantas e tão díspares que ficam para outras núpcias.

Ter um filho é maravilhoso. É um sentimento sem igual. É um não encontrar de adjectivos e substantivos e verbos capazes de transmitir o afecto, o apego, o aconchego e, sobretudo, o amor. Esse amor novo. Diferente. Crescente e incomparável.

Mas ter um filho importa num conjunto de mudanças, umas mais graves que outras e todas diferentes porque nenhuma mulher é igual, no nosso corpo.

Há quem se queixe do peso antigo que não consegue atingir. Da forma, agora redonda. Da barriga que ficou tal qual avental. Há quem tenha mais celulite, mais estrias, mais ancas ou, até, uma magreza extrema, herança da amamentação, noites mal dormidas, ou de tudo isso somado. Cada um com as suas. Estas são só as minhas.

 

O CABELO

Comecei  a perder cabelo estupidamente por volta do quarto mês. Cortei o cabelo pelos ombros e, desta vez, tentei não chorar, visto que me arrependo sempre. Concentrei-me no  número de cabelos que se passeavam no meu chão de mosaico branco e tentei convencer-me de que reduzi-los em comprimento tornava mais fácil a sua aspiração. Errado. São às toneladas e dão para encher almofadas. No lavatório, na banheira, na cama. Nas mãos do miúdo e até na fralda. Sim, ele já comeu cabelos meus, porque já os encontrei no cocó. É um flagelo e um terror. Parece que vou ficar careca. O cabelo está fraco, lambido, oleoso e quase que me apetece, por breves instantes de pouca sanidade mental, engravidar outra vez só para o ter lustroso e a multiplicar-se. Além da queda, as peladas. Fiquei careca na zona das entradas. Sabia, ao olhar para o meu pai e tios, que isto de ter um V na testa é coisa de família, mas foi complicado habituar-me. Não apanhei o cabelo durante dois meses, não sabia se voltava a crescer. Felizmente vêm aí. Mas agora são todos brancos. Deal with it.

 

AS MANCHAS

Tenho pano. Tenho-o disfarçado com base e pó, mas agora, com esta espécie de verão que chega, a coisa ficou mais visível. E pior. Apesar do factor 50, da hidratação diária. Tenho pano nas bochechas. Parece autobronzeador mal espalhado, daquele de má qualidade. E tenho rugas. A olhos vistos. Nos olhos. Nem me posso rir muito que as patas de galinha têm já cerca de quinze dedos.

 

AS MAMAS

Assim curto e grosso, não são mamas, são peles. Foram-se. Sumiram. Hoje meti um par de meias dentro do soutien. Verdade. Assumo. Se o meu marido sabe e a ele não engano, não preciso de mentir a mais ninguém. Não encho um único soutien antigo. Não há um biquíni que me sirva. Foi muito bom enquanto durou a amamentação desfrutar de um silicone à pobre. Sem custos e sempre firme. Mas foi-se. Não sei se culpa da medicação que forçosamente tive que tomar para secar o leite, mas neste momento chamar-lhes maminhas é ser querida. Voltei à puberdade e nem aqueles top’s que usava aos 9 anos me desenrascam. Mas cá estamos com filhos bonitos e saudáveis a compensar tudo. É pensar nisso com muita força quando vejo estas pendurezas.

 

Ninguém é perfeito e longe de mim tentar sê-lo, mas quando me dizem «estás óptima, recuperaste tão bem» agradeço e sorrio e penso um «não é bem assim». Tenho muito mais a agradecer que a lamentar, é verdade. Tento pensar que, se a mim me caem cabelos, há quem seja obrigado a rapá-lo por uma doença má. Tento não encarar a coisa com tristeza ou achando-a impossível de solucionar, até porque quando o meu filho tiver 34 anos e for auto-suficiente, talvez tenha dinheiro para silicone. Aos 70 vou ser um arraso. Mas a verdade é que nunca mais seremos as mesmas. Até porque há uma cicatriz grande e visível que me mostra todos os dias por onde ele saiu. E por onde tudo mudou. Mas, sem dúvida, para melhor.


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