Ao meu filho.

Sabes, filho, eu já te amava na barriga. Já passava a mão pelo teu corpo encolhido e enroscado dentro de mim e sentia que as minhas mãos te tocavam. Sentia que o teu cabelo era penteado pelos meus dedos e que os teus olhos se abriam quando eu te chamava. “Bom dia, filho” e tu mexias. Um pontapé que acertava o pai numa conchinha quentinha que passou a fazer-se a três. Sabes, filho, os teus soluços assustavam. Eu dizia “Já passa, meu querido” tal e qual como te faço agora, embalado no meu colo com quinze dias de vida.

 

Eu já te amava de uma maneira estranha, talvez só nossa, talvez só capaz de ser entendida pelas outras mães. É uma união de dois corpos e dois corações que não se explica. Que não cabe em palavras. É o sentir-te crescer em mim e de mim e ansiar que o tempo passe rápido para que o colo seja eterno. Dentro e fora de mim.

 

Eu já te amava antes e amo-te ainda mais depois. Agora que te alimentas do meu peito e que sorris para a lua. Agora que as noites são iguais aos dias, com um cansaço sentido nas costas e no corpo que recupera por ti. Sabes, filho, o tempo passa mesmo depressa. Não era mentira quando nos diziam que a ampulheta  não recua, nem pausa, só acelera. Num compasso de dias agitados e de novidade constante. De amor galopante. Às vezes, enfio o meu nariz no teu pescoço e cheiro-te até me cansar. Até ficar a sentir o teu aroma muito depois de largares o meu colo. Aquele embalo imaginário, que vai comigo enquanto tento dormir.

 

Sabes, filho, eu vou cheirar-te e abraçar-te e cuidar de ti com um mimo inesgotável. Assim queira a vida. Que eu te proteja e te eduque com o melhor que tenho. Com o mais que consiga. Porque sabes, filho, tu vais crescer. E eu também. E nesta vida nada valerá mais que este nosso laço. Criado numa barriga e renascido na vida. Na tua e na minha.


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