o meu livro.

Era uma vez um Livro em Branco, oferecido no Natal de 2010. Porque um livro é um livro, mesmo quando não há nada nele.

 

Quando era pequena tinha um fascínio por diários, cadernos, folhas soltas com flores e andorinhas nos cantos. Um dos dias mais felizes do ano era aquele em que se oficializava o regresso às aulas, com a compra de material na papelaria local. Era sempre difícil escolher as capas dos cadernos e, frequentemente, entre o período que compreendia a aquisição da tralha escolar e a minha entrada na escola, era ver-me a abrir livros e a folhear os cadernos imaculados, que eu tanto queria escrever.

 

Um dia, na quarta classe, escrevi uma composição sobre a beleza da ópera. Chamava-se assim «A Beleza da Ópera». A minha professora do ensino primário abriu os olhos de espanto e pediu-me se a podia ir ler nas outras salas de aula. Foi a primeira leitura pública de um texto meu. E eu estava tão nervosa ao lado dela. Tinha uns nove anos e palavras como sinfonia, sentidos e musicalidade, estavam sublinhadas.

 

Um dia, talvez no sexto ano, disse à minha mãe «escrevi uma história de crianças». Não a mostrei a ninguém, mas lembro-me que era sobre uma menina que tinha uma bicicleta mágica, em tons de cor-de-rosa e verde-água, curiosamente, as cores da minha BMX. Ela pedalava pelo bairro da Avó e, depois de umas três curvas, por magia, dava-se o biclótransporte e ela estava em Paris, em Madrid ou em Copenhaga, capitais que eu conhecia do Jogo da Europa, que me fazia companhia nas tardes livres com o meu primo Pedro.

 

A história nunca foi sequer lida, mas as aventuras da miúda, cujo nome não me lembro e cujo paradeiro incerto lamento, tinham tanto de mim como a vida que hoje tenho. Ela descrevia cenários e as pessoas neles ganhavam vida. Tinha aventuras em cidades e encontrava sempre amigos em desconhecidos. Acho que só a parte do andar de bicicleta não se enquadra nos meus gostos de hoje. No fim, ela juntava os miúdos de todas as cidades e fazia um lanche no bairro. Bolachas daquelas que são metade chocolate, metade amarelas, com compota de morango por dentro. Só anos depois descobri que a isto se chamam «Húngaros».

 

Um dia, mandei tudo fora. Arrumei a casa e a cabeça, defini novas prioridades e desfiz-me de diários adolescentes, folhas com bocados de livros por desenvolver e terminar, poemas que contavam versos de amor sem rimas. Meti tudo no lixo. Tentei ser mais prática, racional, objectiva.

 

Não consegui. Essa não sou eu.

 

Muitas vezes não sei o que sou. Ora adoro o que leio, ora odeio. Agarro-me ao sentimento de que são as cabeças confusas, desmaterializadas e com laivos de loucura que se tornam geniais. Acredito nisso como tábua de salvação. Escrevo coisas que não fazem sentido semanas depois, outras que me dão medo por as ter sentido. Isto de escrever tem tanto de bom como de tormentoso, mas a realidade é que me acompanhou toda a vida. As palavras misturam-se na minha cabeça e fervilham, como se precisassem de sair para que as coisas realmente existam. Se tornem reais.

 

Um dia, em 2010, comecei a escrever um livro. Usei-o como escapatória porque se faz de cartas íntimas e pedaços de mim, que um bom e atento leitor encontrará. Usei-o como refúgio e, curiosamente, não o mandei fora. Estava escrevinhado num Livro em Branco que me foi oferecido com o propósito de se tornar meu. Escrevi-o. Acabei-o. Nunca o dei a ler a ninguém. Pode não ser uma obra-prima, pode não ser aquilo que eu, no fundo, gostaria que fosse. Não sei, sequer, se ele está realmente acabado. Se algum dia estará. Mas, a verdade e a maravilha disto é esta: vai ser publicado.

 

É meu. Sou eu em tanto dele. E vai ser editado. Vai estar à venda e vai ser lido. Não sei se choro de felicidade se de temor, mas as pernas tremem-me e sinto-me outra vez a cantar a sinfonia da «Beleza da Ópera».

 

Ainda bem que não desisti de mim. Vou ler o meu nome escrito numa capa e isso é mais doce que todos os Húngaros do mundo. Porque um livro é um livro e este é o meu. Obrigada prima Joana.  Esta foi, talvez, das melhores prendas que recebi até hoje.

 

Lançamento Oficial dia 9 de Novembro. Mais novidades e coisas boas em breve <3 

 


7 Comentários
  • Sara Costa
    Outubro 19, 2017

    Parabéns Susana! Muitos parabéns por trazeres um pouco de ti ao mundo. Tenho a certeza que ajudarás muita gente a não se sentir só, nem que seja por saber que do outro lado do livro há uma escritora, uma pessoa, um ser humano que sente, tal como o leitor…
    Como me identifico com esta última parte do teu texto 🙂 O meu estará a venda antes do final do mês 😉

    • Alda Reis
      Outubro 19, 2017

      Parabens Susana!!! Gde beijinho e muitas felicidades

      • susanaamarovelho
        Outubro 20, 2017

        Obrigada Alda. Um beijinho grande.

    • susanaamarovelho
      Outubro 20, 2017

      Obrigada, querida Sara. Pelas palavras e incentivo. Votos de um imenso sucesso também para ti. Não vale mesmo desistir. Um beijinho

  • Joana Sotelino
    Outubro 20, 2017

    Minha querida, parabéns! Vou querer ir ao lançamento, depois diz onde será e a hora! Beijinho!!!

  • Vanessa Rosado
    Outubro 21, 2017

    Muitos Parabéns, Susana! <3 Certamente tocarás mais corações do que podes, neste momento, imaginar!!!… Tocarás muitos mais do que aqueles que assumirão que os tocaste… Seja como for, sem dúvida será bom!! 🙂

  • Maria Miúda
    Outubro 30, 2017

    Vou adorar ler, tanto como adoro estes pequenos textos que vens escrevendo! Muitos Parabéns, Su 🙂

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