Mães de Carreira (sobre não sacrificar a maternidade pelo trabalho)

Este texto é sobre mim e sobre tantas outras. Tomei conhecimento da importância disto quando partilhei uma notícia sobre o último discurso de Carmen Chacón antes da sua morte, figura admirável a propósito, e onde se lia “Se quiserem ser mães, não sacrifiquem a vossa maternidade pelo trabalho. Ninguém vos vai agradecer por isso. O mesmo para os homens. Desfrutem. Podem fazer-se, sem dúvida nenhuma, ambas as coisas.”

 

Também percebi a importância disto quando há uns dias, por telefone, um advogado com quem costumo trabalhar me perguntou «E a Susana tenciona fazer como? Vai continuar a trabalhar em casa? Nem que seja uma ou duas tardes?»

 

Não.

 

A Susana não vai trabalhar em casa, porque o trabalho dela será outro. A minha entidade patronal nunca me propôs tal coisa e, se o fizessem, perdoem-me se isto ferir susceptibilidades, mas eu jamais o aceitaria. Parece-me evidente que um empresário em nome individual, cuja empresa dependa dele próprio, ou que um trabalhador precário a recibos verdes, que se não trabalhar não recebe, gozem de estatuto, infelizmente, diferente. Porém, eu sou um mero trabalhador por conta de outrem. Gosto do meu trabalho, pretendo mantê-lo e que ele continue à minha espera quando regressar, contudo, o meu trabalho não é, de todo, a minha principal prioridade de momento. E parece-me que isto não constitui nenhum crime.

 

A minha prioridade é aproveitar cada instante da minha gravidez e trabalhar até conseguir, sem que isso represente um esforço físico e emocional. A minha prioridade é ter um parto tranquilo e viver todos os meses que se seguem em profunda paz, harmonia e rodeada de amor. Não quero atender telefonemas, responder a e-mails e lembrar-me, sequer uma vez, que deixei um requerimento por fazer ou um prazo em atraso. A minha prioridade é, sublinhe-se e em suma, ser mãe.

 

Não vou sacrificar a maternidade pelo trabalho, porque, efectivamente, ninguém reconhecerá isso e eu não beneficiarei nem mais nem menos por o fazer. Gozarei do meu subsídio como mereço, ou não descontasse há quase dez anos para este Estado e, principalmente, gozarei do meu filho com o meu marido. Que também terá que sacrificar o trabalho dele. Com todo o gosto. Porque isto é para ser vivido a três. E há um tempo para tudo.

 

Não pensei que ainda existissem entidades patronais que afrontam as mulheres grávidas ou as despedem. Aliás, sei que existem, mas tento esquecer-me. Tento acreditar que o mundo se encaminha para um melhor rumo e caminho menos curvilíneo. Tento acreditar que a igualdade de direitos vai ganhando terreno e cimentando alicerces que, de uma vez por todas, têm que ficar firmes. No entanto, percebi pelas partilhas e mensagens que recebi que não é bem assim. E dificilmente será. A mulher quer-se ou em casa a cuidar do lar perpetuamente ou a viver exclusivamente para a carreira. E, se és uma mulher de carreira, não podes ter filhos. Pelo menos, assim parece.

 

Lamento que assim seja, porque na realidade ambas as coisas são exequíveis. Com algum jogo de cintura, com algumas dificuldades em determinada altura, mas são. Desde que não existam patrões a torcer o nariz porque a funcionária está grávida ou a contratar exclusivamente homens para fugir a esta sentença de morte que é ter filhos e trabalhar ao mesmo tempo.

 

Os tempos mudaram. Temos que nos ajustar a eles. E temos que desfrutar deste momento tão feliz com a serenidade que ele merece. Sem pressões, culpas ou medos. Pensamos no trabalho depois.

 

Tudo a seu tempo.

 

Nota: Não sou eu na fotografia que ilustra o texto. Ainda não estou assim tão grávida. 


2 Comentários
  • Anónimo
    Setembro 19, 2017

    Que belo texto. Concordo plenamente. O meu patrao disse me:n penses q n vais trabalhar durante a licença. Vais ter q ca vir q n vou meter ca ninguem por 6 meses… lamento mas isso n vai acontecer 😉 vou aproveitar o tempo q vou escolher a 100% e n ha nada nem ninguem q me va tirar esse prazer. Mais tarde, n me vai agradecer nada

  • Susana M
    Setembro 19, 2017

    Querida Susana, infelizmente os tempos apenas se apresentam como se estivessem a mudar… mas na realidade não estou. Diria mesmo que, ao contrário daquilo que queiramos acreditar, os tempos estão a reverter cada vez mais os direitos e papel da mulher.
    Independentemente das escolhas que decidires fazer, fá-lo com a convicção do que realmente é importante para ti e dessa forma nunca olharás para trás com a sensação de teres deixado algo pelo caminho.
    Por agora aproveita a tua gravidez e esse amor a 3 porque nunca mais terás algo assim – mesmo que tenhas mais filhos 🙂

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