Somos 3, agora.

Sempre tive um certo receio dessa coisa de ser mãe. Nada mudou. Continuo a tremer das perninhas. No início do mês de Junho descobri que havia uma pequena célula no meu corpo com uma maior importância que as outras. No início do mês de Julho ouvi bater não um, mas dois corações dentro do meu corpo. No início do mês de Agosto vi um bichinho com milímetros a fazer natação na minha barriga. O medo é legítimo, parece-me. Vivi 31 anos sozinha e só com um ritmo cardíaco a governar os meus dias. Agora, e para sempre, porque o cliché e a vida assim o ditam, vão ser dois os corações a bater dentro de mim. Porque mesmo no dia em que ele sair, tenho a certeza que não sairá por completo. Haverá sempre qualquer coisa dele a mover, a inquietar, a fazer ansiar o meu coração, até aqui independente e responsável apenas por ele.

 

Sempre tive um certo receio desta coisa de ser mãe e tenho a certeza que irei ter para o resto da vida. O ideal, ou o propósito disto, deve ser aprender a gerir o amor inabalável e único, com o medo constante. Ser mãe é conhecer o amor, mas também é ter um medo perpétuo. Lembro-me de ser miúda e de ler uma frase que dizia que ter um filho é viver com o coração fora do peito. Muitas mais coisas se escreveram e escrevem sobre isso, frases, certamente, de igual beleza e sentido, mas esta marcou-me e marca-me tipo cicatriz. Porque é uma responsabilidade do caraças esta de dividir corações. Esta criança terá o meu e eu o dela. Eternamente. É um elo que não se quebra.

 

É cedo para dizer que é o amor maior. É cedo para dizer aquelas frases bonitas e agradecer por ela me ter escolhido. Ainda é cedo, até, para lhe chamar criança ou sentir aquele apego. Sou muito emoções e palavras escritas, mas também sou muito racional. Parece-me é que o medo não achou que era cedo, não quis dosear nada disto e implanta-se diariamente nas coisas mais mundanas e, antes, banais. Talvez sejam mesmo as hormonas. Talvez seja só eu a ser humana e a assumir que isto me assusta, antes de me enternecer.

 

De qualquer modo, sinto-me tranquila na medida certa. Feliz na medida exacta. Agradecida todos os dias. Ainda que viva em mim um misto de sentimentos novos, hipérboles em ascensão e caminhos por percorrer, ainda ao pé coxinho. Mas há em mim certezas. Mesmo que a vida que se avizinha vá dar uma valente cambalhota. E mude tudo.

 

Porque se há coisa que me deixa segura é saber que amor não faltará nos nossos dias, que escolhi o melhor pai para esta cria e que os dois corações que vivem no meu corpo têm um outro cá fora a tomar conta deles. Deve ser isto o amor.

 

Somos 3, agora.


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