Fogo posto e marcas eternas.

Tenho um amigo que vive numa aldeia cercada de floresta. Tem uma casa de família, amigos e vizinhos por perto, toda uma vida com raízes naquele lugar que lhe é tão familiar quanto as paredes onde habita, desde que nasceu.

 

No ano passado, em Agosto, ouvi-o chorar ao telefone, com uma voz desesperante que guardarei para sempre dentro de mim. Gritava-me «A minha casinha. A minha casinha está a arder». Ainda consigo sentir a dor, o desespero, a impotência. Choviam fagulhas que lhe ateavam o quintal. Ouviam-se gritos. O telemóvel desligou-se. Ficou o silêncio e um aperto cortante no peito que cimentou um trauma. Tenho pavor a incêndios desde esse dia.

 

A casa dele não ardeu. Munido de uma mangueira e de uma coragem que em momentos de aflição brota sem sabermos de onde, conseguiu proteger o pouco que tem. Os pais fizeram o mesmo com a casa deles. Fugiram-lhe os gatos de estimação, a quem perdeu para sempre o rasto. O avô foi evacuado, mas ficou a salvo. O terror pintou aquela noite de vermelho e o céu nunca meteu tanto medo, confundindo-se com o inferno. O desfecho não foi trágico, mas as marcas ainda lhe vivem no corpo. Não há uma fogueira que não lhe acorde os nervos, nem uma notícia que não o faça estremecer. Na noite passada, o fogo voltou a estar perto. Mais lágrimas, mais velas acesas e pedidos aos céus para que se faça uma chuva milagrosa. Porque os meios terrestres parecem não chegar. Mais uma noite acordado onde o calor e o vento se misturam, num tornado de medo e angústia.

 

Foi fogo posto no ano passado. E neste também.

 

Quando é que isto acaba? Quantas mais famílias terão que sofrer, que sentir na pele a perda de entes queridos, de património que foi construído com suor e pele toda uma vida?

 

Não vou discutir a eficácia do SIRESP, o interesse na queima dos eucaliptos, ou outras quaisquer questões financeiras ou governamentais mascaradas. A mim, interessam-me somente as vidas humanas e a dor dilacerante. Porque aquela voz em desespero viverá para sempre no meu coração.

 

E, contra a Mãe Natureza nada podemos, mas contra o Homem sem princípios, sim.

 


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