Parabéns Avô.

Quando eu era pequena tive uma boneca chamada Belinha. Tinha sempre a boca aberta, quer estivesse a comer ou a dormir, e um carrapito com um laço branco no topo da cabeça. Um dia, o Pantufa, cão de caça Épagneul Breton, caçou a Belinha e roeu-lhe o dedo grande do pé. A Belinha ficou com nove dedos, um buraco no pé tipo cratera de vulcão onde eu podia guardar moedas e eu chorei como se também me tivessem amputado o coração.

 

Foi o meu avô quem me ofereceu a Belinha. Comprou-a, com a dica evidente da minha avó, e escondeu-a no barracão onde guardava as ferramentas. Um dia, disse-me: «anda Canita, anda ajudar o avô a arrumar isto» e quando eu abri a gaveta do móvel, o mesmo onde ele tinha um torno azul, objecto que sempre achei fascinante e que servia para eu prender livros abertos enquanto brincava às escolas, a Belinha estava lá dentro. Embrulhada numa manta tricotada pela minha avó e com um vestido de bombazina amarelo-torrado.

 

Foi uma das mais maravilhosas e felizes prendas que recebi. E nem depois de ela perder um dedo deixou de ser a minha boneca preferida. Um par de meias ou uns sapatos de lã e a coisa estava resolvida. Por isso, eu, o Avô e a Belinha, fomos muitas vezes os três fazer biscates. Ficávamos as duas à espera enquanto ele montava antenas ou arranjava tomadas. Também fomos a Beja ver o Clube Desportivo de Mafra e eu fui obrigada a comer gaspacho. Custou menos à Belinha, porque afinal de contas ela já tinha nascido com a boca aberta.

 

Hoje, tenho a Belinha guardada na casa da avó e o meu avô guardado na minha melhor gaveta.

 

Parabéns Avô. 72 anos, 31 dos quais a viver comigo.

 

Da tua Canita.

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