CARDIFF, BRISTOL, BATH E LONDRES (e mais uns ímans para o frigorífico)

Tenho sempre alguma dificuldade em fazer resumos ou em contar as histórias das viagens que faço, porque sinto sempre que tudo o que escrevo ficará sempre aquém do que lá foi vivido. A sensação de aterrar, pisar um país/ cidade desconhecida, explorar o que por lá se faz, se come, se veste, se encontra, se conhece, é algo que nunca caberá em palavras. Por mais bonitas que elas sejam. Os lugares são as experiências que temos neles. São as pessoas que nos acompanham e com quem nos cruzamos e conhecemos. São o que retiramos e guardamos em fotografias das melhores. Aquelas que não chegam a ser reveladas, porque ficam no melhor disco rígido que temos.

 

Há imenso tempo que andava a prometer esta viagem. Uma semana parecia pouco. Um mês também o seria, certamente, porque no fim nunca sobra tempo e falta sempre a capacidade de fazer esticar horas e minutos. Faltava-me Londres no grupo de cidades onde é quase imperativo espetar o pionés, mas não me agradava a ideia de ir apenas à terra de Sua Majestade, porque cada vez mais adoro esta coisa de alugar um carro e partir à descoberta. Dormir em aldeias pequenas e conhecer o lado não turístico. Perder-me em linhas por ler. Nem sempre os livros mais vendidos são os melhores.

 

Desta vez, fomos 4. Dois casais com cãibras na barriga de tanto rir, munidos de baralhos de cartas que contaram pontos ao Rummy (descobri hoje no Google que se chama assim porque na Vila Velha sempre se chamou Rámi! Com acento no Á) e gargalhadas intermináveis e desejosos de comer um bacalhau cozido com batatas, mal pisássemos solo luso. Viajar é bom, mas não há nada como chegar a casa e aterrar num pastel de nata (dos verdadeiros).

 

Ora, então, vamos lá por partes:

 

– Voámos para Bristol e alugámos carro lá. Conduzir à esquerda foi um problema inicial. Contramão duas vezes para começar bem a festa.

 

– Fomos para Cardiff logo de seguida, capital do País de Gales. A cidade é pequena, mas limpa e organizada. Tem uma baía fantástica, a perder de vista, e uma pastelaria portuguesa onde comemos uma bolinha de pão com manteiga (sim, só estávamos fora há um dia, mas é melhor que bacon e salsichas). Aconselho vivamente a visita ao Castell Coch que fica nas redondezas, a uns 10 minutos de carro. Tem um ambiente medieval único e aquela misticidade típica das histórias de princesas. A Rapunzel poderia viver lá.

 

 

 

 

 

 

– Passámos o segundo dia em Bristol. A cidade é claramente portuária e industrial. Tem um mercado muito giro, o St. Nicholas Market, cheio de comida, cheiro a incenso, alfarrabistas e velharias. Tirando isso, apenas a Catedral mereceu a nossa atenção, com um jardim interior onde se respira paz. Fizemos um passeio de barco pelo rio (sem muita graça ou novidade) e provámos os bolos que, dezenas de pessoas, vendem nas ruas. Não se deixem enganar pelos olhos, porque são mais bonitos que bons. Há pinturas do Banksy e souvenirs alusivos a elas em todas as esquinas, mas, honestamente, o Vihls dá-lhe cem a zero. Aliás, andámos perdidos à procura da Rapariga com Brinco de Pérola e quando a encontrei soltei um «É só isto?» (não quero ferir susceptibilidades e escrever a asneira que acompanhou a questão). Bristol foi a cidade que mais me desiludiu. Posso mesmo afirmar que a cidade é feia. Já os arredores são de cortar a respiração.

 

 

 

Winford é uma vila típica do Somerset. Ficámos lá porque a estadia em Bristol (centro) era estupidamente cara e ainda bem que assim foi. A vila é um encanto. Casas de pedra cheias de flores e impecavelmente restauradas/ mantidas. Tudo limpo, cheio de luz e com um cheiro a primavera que dá vontade de inspirar fundo e absorver tudo. Nunca um sítio me deu tanta paz. Corre um riacho a meio da vila e, para além das flores, há bancos nas margens, ali colocados em homenagem a antigos e falecidos residentes. Jantámos num pub, o único na vila, e ainda nos pagaram o jantar. Desconfiámos da boa vontade do senhor que nos colocou o dinheiro na mesa e demos por nós em conspirações noite dentro. Mas, a realidade é que ainda há gente boa que dá porque sim. Sem querer nada em troca. Pelo menos ali foi o que aconteceu, porque só lhe demos simpatia e dois dedos de conversa. Não estamos habituados a gestos de bondade, é essa a verdade.

 

 

– Seguiu-se Bath e aqui o meu coração encheu-se daquela sensação de «pertenço ao Downton Abbey por um dia». Tudo é amarelo. Tudo é meio antigo, num estilo georgiano que só tinha visto nos filmes e imaginado nos livros. Senti-me numa história. Das boas. As termas estavam cheias. O Royal Crescent é igual às fotografias dos guias de viagem. Casas em círculo e com uma perspectiva singular. Um risotto de cogumelos servido por uma portuguesa. O centro da Jane Austen, onde recordei o Orgulho e Preconceito que tanto adoro. Passeios nas ruas mais animadas que já vi. Em cada esquina, um músico. Em cada largo, um estilo. Em cada um deles, pessoas e fotografias e palmas. Aqui, sente-se a cidade e apetece ficar. Era capaz de viver em Bath. Parece precoce, mas era mesmo. Até esteve sol. Creio que nesse dia a produção da série se inspirou para me agradar. Só faltaram os figurinos de época.

 

 

– Dormimos em Reading uma noite e é absolutamente terrível. Ou pelo menos nesse dia estava. Era domingo e chegámos lá ao final da tarde, mas não havia um sítio onde lanchar, ou onde, como eles tanto gostam de dizer, tomar um english afternoon tea. Ou um copo de água. A cidade estava suja, cheia de lixo nos passeios. Cheia de mendigos a pedir esmola o que, por si só, já basta para nos deixar infelizes. Parece um subúrbio de Londres, apesar de se situar a hora e meia de distância. Não tem catedral, por isso e para os ingleses, não é uma verdadeira cidade, mas acho que lhe falta muito mais que isso. Limpeza, organização, pessoas. Aqui, destruindo todo o conceito da Inglaterra medieval e bonita, senti-me num episódio do Walking Dead. Claro que acabámos a jantar no McDonald’s.

 

Londres. Londres não desiludiu. Levava expectativas altas, até porque o Pedro já conhecia e adora a cidade, mas conseguiram manter-se lá em cima. À altura do London Eye. É uma cidade cheia de gente, trânsito, edifícios e tudo o que possamos acreditar que cabe lá dentro. Porque cabe mesmo. Não consegui sentir verdadeiramente a cidade, acho que teria que lá viver para isso, ou conhecer tudo o que gostaria, mas os três dias conseguiram dar-me uma perspectiva bem feliz do sítio. Comecei pela Plataforma 9 e 3/4 do Harry Potter. Quem leu os livros e pertenceu um bocadinho ao mundo encantado da feitiçaria, percebe a sensação que temos ao chegar lá. Foi mágico. Portobello Road não desiludiu e podemos mesmo regatear preços. Nothing Hill é um encanto. O Big Ben não é nada pequeno e os guardas do palácio afinal mexem-se (e muito, ou então estava só com alergias). O Museu de História Natural não é melhor que o de Nova Iorque, mas o Hyde Park está à altura do Central Park. O Harrods é, realmente, incrível, mas gostei mais do edifício por fora (até porque lá dentro não consegui comprar grande coisa, visto que o colar de diamantes que eu queria estava esgotado, foi só por isso). O Selfridges deu-me vontade de rever a série. Estava mesmo na esperança de esbarrar no Jeremy Piven, mas não aconteceu. Andámos de bicicleta duas vezes e contrariados, porque o Pedro quase que nos implorou (e subornou). No fim, revelou-se uma das melhores e mais divertidas experiências. Estava tão profissional e empenhada que me destaquei do pelotão e os perdi. Londres foi Londres na sua mistura de gentes e ofertas e barulho e edifícios que se camuflam em jardins. Foi muito bom. E é uma cidade cheia, onde as pessoas se sentem livres. Principalmente do preconceito e do estigma de que temos que ser todos, estupidamente, iguais.

 

 

 

A quem estiver interessado no roteiro completo e detalhes sobre estadias, posso enviar mais informações por e-mail. Uma coisa é certa e posso desde já adiantar: vale muito, muito a pena.

 

Um obrigada de coração ao Pedro (primo) e à Célia pela magnífica e inesquecível companhia. Podíamos ter ido só ao Algarve, porque, com vocês, teria sido fantástico na mesma.

 

Ao meu companheiro de viagem (e de tudo), obrigada. Obrigada por me ensinares o quão bom é isto de sairmos do sofá e por me cederes sempre um espaço na tua mala para os meus outfits a condizer.

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