(hoje) sabemos todos tudo.

Visto tantas vezes uma espécie de capa imaginária. De fazenda. Protege-me, mas arranha a pele. Pica os meus poros arrepiados pelo medo. Pele de galinha. Visto tantas vezes essa capa que me esconde terrores diurnos. Pensamentos que me desviam da rota que se quer certeira. Trilho marcado ao compasso do GPS. Modernices. Não podemos errar na curva, porque cair na valeta é cair na lama. Enxovalhado e criticado por terceiro. Porque somos todos críticos e perfeitos nos dias que correm. Todos vestidos de medo. De inseguranças e fraquezas escondidas em capas feitas de merda. Fingimos. Rimos. Pele de galinha por baixo. Que raio de estigma da perfeição é este? É a cultura da censura. Somos todos comentadores. Políticos. Sociais. Anormais. Olhamos o outro e fingimos ser mais. É tão fácil fingir, não é? Principalmente se uma capa nos esconde os medos. Mesmo que a capa seja de espinhos. Mesmo que doa mais usá-la que ser puro.

 

Que espécie de espaço é este onde nos empurramos como se o ar se esgotasse? Como se a terra que pisamos fosse mais minha que tua? Como se a estupidez fosse um prémio e ganhasse quem erra mais? Quem magoa mais? Quem se culpa de menos? É isto a humanidade?

 

Visto tantas vezes uma capa que me deturpa a visão. Enfio o carapuço até que sobre, apenas, espaço para respirar. Assim não vejo nada e custa menos. Custa menos sentir o egoísmo e as facadas mortíferas. Custa menos perceber que são muitos mais os que te empurram para o chão, que aqueles que celebram contigo as vitórias. Até as mais pequenas. Palmas escondidas de nada servem. E mais vale ser cego. Visto tantas vezes esta maldita capa que esconde uma barriga inchada de tantos sapos que engole. Pele de galinha e barriga de sapo. Que tipo de monstros somos?

 

Quem me dera ser estúpida. Via menos. Pensava menos. E tinha menos vontade de me afogar. De limpar a cabeça que se confunde por excesso de informação. De sentimento. De crenças e abalos emocionais. Quem me dera vestir a capa e tornar-me invisível. Ver os outros sem pensar e, só, boiar no leito de um rio com margens carregadas de margaridas.

 

Essa, sim, seria a verdadeira capa. As outras são feitas de merda. Só nos mascaram nesta sociedade corrompida e que me dá vertigens. Onde todos sabem tudo. Melhor que eu. Melhor que tu. Onde a crítica anda de mão dada com a maldade. Amigas de infância. Decidem quem entra e quem sai. A quem se tira o chapéu e a quem se cospe na cara. Meritocracia? O que é isso? Não é preciso. O teu valor mede-se em função da escala fingida com que os outros te aprovam. Veste uma capa e estás safo. Sê um cordeiro. Se te desvias, cais no poço. E não há balde que te salve.

 

Quem me dera ser estúpida. E invisível.


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