Cuidado com o que dizes.

Tu não sabes. Tu não sabes quantas dores habitam numa casa. Quantas histórias já se contaram em lágrimas. Quantas depressões profundas se deitaram e embalaram corpos na marcha do suicídio. Quantas vezes a tristeza, quase, matou. Ou o medo o impediu. Tu não sabes.

 

Tu não sabes, quando apontas o dedo aos homossexuais e os apelidas de paneleiros, numa palavra crua, vulgar e dura, o quanto eles, em silêncio, sofrem por não poderem ser livres. Como tu. Tu não sabes, quando te sai a piada certeira e te ris muito, quantas das pessoas à tua volta sofrem pelo conhecido, amigo, primo, enteado, que vive num país tacanho, desprovido de amor, egoísta até às mais cavadas entranhas. Miseráveis. Tu não sabes.

 

Tu não sabes quando gritas pelo Salazar, quantos à tua volta passaram fome à luz do regime dele. Ai, essa memória curta. Ou quantos foram impedidos de falar. Como tu, tantas vezes, devias ser. Era uma sorte.

 

Tu não sabes, quanto te queixas da gordura, quantas sofrem anorexias escondidas, comparando-se a magrezas extremas. Tu não sabes, nem conheces, de que matéria se faz o verdadeiro íntimo.

 

E sobre o aborto? Já pensaste? O que é que sabes? Quando perguntas, quando condenas os que não têm filhos, sabes se naquelas paredes se esconde uma dor maior que o útero que um dia carregou um feto, mas o expulsou? Sabes se os passeios, as festas e os jantares servem, apenas, para camuflar um desgosto de meses e anos de luta e tratamentos e químicos e drogas? E o aborto que fez a miúda que foi violada? A que foi obrigada? Condenas? Ou já aceitas? Também não sabes. Mas consegues dizer: «tivessem juízo». Espero que nunca seja com os teus. Que nunca seja na casa onde tu vives.

 

Tu não sabes, nem tentas perceber, quantos à tua volta magoas quando brincas com traições. Com amantes. Com mulheres deixadas e que agora se pavoneiam de saias curtas. Deixa-as. Elas que procurem e recuperem o ego que, alguém, terrivelmente lhes roubou. Tu não sabes o quanto dói. E, se algum dia soubeste, já esqueceste.

 

Tu não sabes o que é viver no corpo deles. Na pele deles. Sentir um corpo diferente aos olhos do que se quer perfeito. Um corpo cheio de marcas. Iguais às tuas, às minhas e às de tantos e que, no entanto, tentamos esconder. Cicatrizes todos temos. Por isso, se não sabes, respeita. Tem cuidado com o que dizes. Mede. Equilibra. Pensa. Nunca sabes quem se senta ao teu lado. De que sofre. Que linhas e pontos se escondem, num coração e corpo remendados. Somos todos ossos, músculos, órgãos. Por isso, tem cuidado com o que dizes. Não sabes quantos ossos se partem, músculos se contraem e órgãos se despedaçam, quando falas.

 

Que se faça uma ode à prudência. Já é altura. E ela não faz mal a ninguém.

 


3 Comentários
  • Tiago D'Almeida Fonseca
    Março 8, 2017

    O meu mais sincero obrigado pela reflexão e consciência que o teu texto de certo vai provocar em quem não sabe respeitar e aceitar o sofrimento alheio.
    Parabéns pela escrita simples mas imensamente cuidada, são textos como este que me fazem ser um apaixonado pela leitura e pela nossa maravilhosa língua portuguesa.

  • Anónimo
    Março 12, 2017

    Texto Fantástico! Obrigada por nos fazeres reflectir ❤

  • Anónimo
    Novembro 16, 2017

    Como de costume, muito bom. Um beijo

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