Obrigada, Pai

Talvez nunca te tenha agradecido. Talvez, como em muitas relações humanas, fique tanto por dizer. Quando penso no que representamos um para o outro, sei que somos feitos daquele amor mascarado. Assim tipo Carnaval. Tu finges que eu percebo tudo e ambos escondemos elogios em palavras brutas. Nunca me ligas a perguntar se estou bem, mas perguntas à mãe todos os dias por mim. Nunca te sentaste para eu desabafar mágoas adolescentes, mas deste murros na mesa quando me estilhaçaram o coração de miúda. Nunca foste comigo ao médico, ou soubeste que medicação tomava para a rinite, mas ias levar-me pacotes de lenços ao quarto se me ouvias espirrar.

És daquela geração (a)típica, em que a mulher cuida dos filhos e o marido mete o dinheiro na mesa. Hoje, és alvo de censura. És de um tempo que já não se usa. Hoje, és um tanto melhor do que já foste, ainda assim não sabes os programas da máquina de lavar roupa. Não cozinhas. Sujas tudo para estrelar um ovo. Mas, no meio de todos os defeitos e sexismo, és meu. E sempre foste. De uma maneira que só eu e tu sabemos. De uma maneira tão genuína e crua e egoísta que, tantas vezes, doeu. E dói.

Não sabemos ser carinhosos um com o outro. Não sabemos, tantas vezes, demonstrar o que nos cresce no corpo em orgulho e admiração. Mas sabemo-nos lá. Eu sei-te lá. E sei-me a pessoa que mais amas. Que mais choras. Que mais te emociona. Sei-o porque os teus olhos brilham quando eu chego. Porque a tua gargalhada passa paredes vizinhas quando eu digo algum disparate, que até nem tem assim tanta graça. Porque a tua sensibilidade é de uma doçura que não combina contigo, mas que existe aí dentro.

Talvez nunca te tenha agradecido a palavra certeira em tantos momentos. Aquela que não quis ouvir, mas anos depois soube certa. Talvez nunca te tenha agradecido, porque quis mais de ti, exigi mais de ti e obriguei-te a seres o que não és. Porque te idealizei e sonhei de uma maneira pouco justa. Também eu tenho errado. Também eu sou feita desta fibra teimosa, igual à tua, e que quer tudo à sua maneira, sem se deixar moldar.

Talvez nunca te tenha agradecido por me teres levado a Alvalade, aos sete anos, ver o Balakov golear o Leça. Ou pelos aniversários em que, de plantão ao fogareiro, alimentaste todos de entremeadas e febras. Ou talvez não te tenha agradecido, convenientemente, esta justiça e honestidade que herdei e que às vezes é tão bruta, salta-nos boca fora e disparamos tiros certeiros nos outros. Depois, a medo, saramos feridas. Ou tentamos. Mas somos sempre genuínos. Estúpidos, tantas vezes.

Por isso Pai, devo-te um obrigada. É tempo de parar de exigir e aprender a agradecer. Ser grata foi um dos ensinamentos que me passaste. Meio ao teu jeito. Aquele que diz «olha, não te queixes masé!». Não és de poemas, nem de leituras. Não és, sequer, de grandes manifestações de afecto. Mas és meu. Tantas vezes incompreendido, incompreensível, estranhamente parecido comigo, mas diferente em igual proporção.

És o meu primeiro ídolo e quem me mostrou, com tudo o que isso tem de bom e mau, que os verdadeiros ídolos estão carregados de defeitos. E eu aprendi. Aprendi que a verdadeira virtude do Homem é saber embater nesses defeitos e, contudo, aceitá-los. Amá-los. E agradecer, ainda assim, por os termos na nossa vida. É muito melhor o todo que a soma das partes.

Por isso,
Obrigada, Pai.


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