Licença Sem Vencimento.

 

Às vezes não sei que caminho seguir. Sinto aquela avidez de mudança quase opressiva. Não quero viver na mesma casa, mudo os móveis de sítio, compro almofadas novas. Procuro um sem número de casas para arrendar e depois percebo que o problema não é a casa, mas sim o sítio. Aí, penso em mudar de cidade, em mudar de país, em abraçar um destino inexplorado ou, quiçá, um outro por onde já tenha passado e ao qual quero, sempre, regressar. Mochila às costas, roupa doada. Desprendida das leis que me regem o código da vida e que me fazem arrebatar tudo a tantos, todos os dias. Nem sei que justiça há no que faço. Sigo leis que não defendo, duma constituição em que, tantas vezes, não acredito.

 

Às vezes queria cortar as correntes. Sair do conforto do sofá e do chá quente. Lembro-me de querer ser jornalista precisamente por isso. Para poder fugir. Lembro-me dos meus cadernos de histórias inventadas onde eu era fotógrafa e poeta e vivia numa autocaravana. Faltou-me coragem. Às vezes queria abraçar mais causas, ser mais voluntária e menos centrada em problemas inexistentes e dramas nada preponderantes, porque, afinal, amanhã já nem pernas têm para andar. Às vezes queria ter sido tanta coisa que, aos trinta, tenho que acreditar que ainda posso ser. É uma espécie de insatisfação satisfeita. Sabemos que o que temos é bom. É suficiente. É o bastante. Ou até mais que o bastante, tantas vezes, mas, ainda assim, nem sempre chega.

 

Sabemos que somos felizes numa medida maior que o metro e isso tem que ser suficiente para tapar os centímetros. Temos que conseguir encaixar lá tudo, procurar contentamento, saber agradecer. E eu até sei, mas às vezes não chega. Às vezes quero desprender-me do socialmente imposto. Quero abdicar do trabalho certo, da casa certa, da vida premeditada e organizada em conformidade com o regulamento da existência. Quero ser livre. Desimpedida. Despida de obrigações que nos colam à luz, à água, ao gás, ao IMI, à farmácia. Sou feliz, mas quero ser mais.

 

Vi o Captain Fantastic com um argumento absolutamente fantástico do Matt Ross e apeteceu-me hibernar na floresta. Montar uma cabana com troncos de carvalho e deixar que a pele respire sem base e sem cremes químicos, nua. Apeteceu-me comer mangas sem E’s e beber água sem ler no rótulo o Ph. Apeteceu-me ler à luz da fogueira, criar filhos sem horários e sem educadoras a educá-los por mim, enquanto corro, a medo, para que o supermercado não feche sem que tenha comprado algo para o jantar. Apeteceu-me não ter que acordar às oito com uma música de despertador repetitiva, death metal para os meus ouvidos. Apeteceu-me adormecer ao som de grilos e arrepiar-me com o frio do vento e da água gelada do rio.  Golpear a rotina e atacá-la pelos seus muitos defeitos. Apeteceu-me fugir. É isso. Às vezes apetece-me fugir. Não sei se para melhor, mas fugir sem receio, sem metáforas. Ir e pronto. Depois, logo se vê.

 

Às vezes, apetece-me apresentar um pedido de licença sem vencimento. Fundamenta o pedido: viver sem amarras.


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1 Comentário
  • Anónimo
    Janeiro 28, 2017

    Bravo Susaninha!!!
    Às vezes apetece mesmo fazer isso tudo!

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