Amour.

 

Anne: It’s beautiful.
Georges: What?
Anne: Life. So long.

 

Há filmes que nos tocam de uma maneira quase inexplicável de tão intensa. São como um abanão no corpo e na cabeça. Uma rabanada de vento que nos faz cambalear, perder ligeiramente a força nas pernas.

 

No domingo passado vi o Amour do Michael Haneke, filme francês de 2012, premiado com um Óscar e com duas interpretações absolutamente soberbas. Fiquei a pensar naquilo durante largas horas, coisa que usualmente me acontece quando um livro ou filme são realmente bons. Fiquei submergida no enredo de tão denso, tão violento, tão triste e, em simultâneo, tão bonito. Uma dualidade de sentimentos, uma estranha ansiedade, um medo, inegável, sobre o futuro que nos espera.

 

A história relata, sem grandes divagações e sem que se levante o véu da surpresa, a velhice e o acabar da vida. Em sofrimento. Relata a intensidade do amor entre dois seres humanos que construíram um percurso juntos e que, nem na fase que sabem terminal, deixam de se apoiar. Relata um amor inabalável, que transpira resistência e coragem.

 

É um filme lento. Demorado. Quase vivido na mesma cadência das pernas do actor octogenário Jean-Louis Trintignant. Mas é, também, um filme que resume a vida, que resume sentimentos e emoções como o respeito, a confiança, o companheirismo e a amizade, ao mais puro e simples dos sentimentos: o amor.

 

Fiquei a pensar, inevitavelmente, no meu fim. No fim dos que me são próximos. No quanto temos que ser gratos, dentro do cliché que é a vida. Mandei mensagem à minha mãe e ao meu pai. Abracei o Pedro com força. Os meus avós paternos acabaram exactamente do mesmo modo: um a cuidar do outro. Não é mais fácil cuidarmos uns dos outros durante toda a vida e não, apenas, quando chegamos ao fim? Ou quando o fim de alguém se aproxima? Aperta-me o peito. Estrangula-me o pescoço este medo da impotência, principalmente se consciente.

 

É preciso pensar no fim durante o meio, porque são os pequenos gestos e os grandes amores que fazem do fim um início dos bonitos.

 

Mais sobre o filme no IMDB – ver aqui


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