cabrão do cancro.

Cabrão. Não tenho forma de começar isto de outra maneira. Nada ameniza, não há eufemismo que lhe assente. Há nomes piores para lhe chamar, isso há, ao pontapé. Era um pontapé bem dado. Filho de tantas coisas. Asneiras das pesadas e que envergonham. Cabrão chega para o efeito. Quem pensa ele que é? Diagnosticado precocemente, numa vida igualmente de merda, curta, fugaz, com tanto por fazer. Leva-nos velhos e novos. Não pede autorização. E não leva suavemente. Massacra. Mutila. Arranca bocados. Demora a ir embora e tantas vezes, mesmo depois da carta de despedida mais feliz que na vida se escreve, o gajo volta. Volta e esmaga. Pisa. Morde. E amordaça. É um cabrão sem sentimentos que rouba filhos e pais e avós e netos. A mim, tirou-me um avô vestido de pai. De uma só vez, levou-me dois. Não me pediu pra entrar, estragou natais e aniversários. Imprimiu numa lápide um nome que amo e que, mesmo que cubra de flores, viverá sempre num cortejo fúnebre. Não há coroa que lhe faça jus. Cabrão. Chega de mansinho e come fígados. Come pulmões. Até rapa os ossos. Passeia no sangue. Aloja-se nos rins. Pernoita, faz barulho e tira o sono e ainda nos deixa a conta para pagar. Nunca conheci tamanho filho da mãe. É presunçoso, vaidoso. Faz-se notar. Não há jornal onde não esteja, nem casa onde não bata à porta. Aliás, ele à porta nunca bate. Entra de rompante e senta-se à mesa, mascarado em análises e dores que se crêem de rotina. É um falso, um infiel, um vizinho dos que perturbam. Hoje está ali, amanhã no meio de nós. Só Deus saberá o que isso é. Quanta ironia. Cabrão. Merda para ele. Que nos chega em forma de notícia sobre um colega de faculdade, um familiar de um amigo. Um dos nossos. Cabrão que nos faz pedir baixinho protecção, mesmo sem saber a quem. Meter trancas à porta. Meter grades nas janelas. Não há quem o mate? Quem o rapte e enforque? Quem lhe diga, em definitivo, que não há crime, nem doença, nem mal maior que ele? Filho da mãe imprestável. Tem levado tantos murros e têm sido cada vez mais as vitórias, mas ele teima em aparecer. Em não desistir. Em fazer-se notar, qual príncipe ofendido a quem cai, de vez em quando, a coroa. Menino mimado. Há-de ser castigado. Morto aos bocadinhos. Um de cada vez.

Pedi saúde este ano. Saúde e vitórias para os que o enfrentam. Para os que, no ringue, o têm que levar ao tapete e expulsar da arena. Os milagres existem. Alguém há-de cuspir na cara deste cabrão. Fazer um favor ao mundo. Matá-lo de vez.


6 Comentários
  • Ariete de jesus
    Maio 19, 2017

    Os cientistas da medicina haviam de inventar a cura para esta praga que mata tanta gente , e ao inves de gastarem dinheiro em armas, bombas etc… 😥

    • Ana
      Janeiro 11, 2018

      Concordo contigo Ariete … maso que chamas praga é nada mais nada menos que o corpo com genes mutados… em que o teu corpo entra em modo autodestrutivo… é mto complexo e mais que a cura, necessitaríamos prevenção. Não obstante a ciência trata de procurar algo que trave essa autodestruição.

      Sao os novos hábitos da sociedade desse os últimos 50 anos que fazem que cada vez leve mais gente e de todas as idades. A indústria farmacêutica e a alimentaria tem os mesmos interesses…e o stress e na alimentação entre tantos outros factores contaminantes são determinantes.

    • Pedro Pisco
      Dezembro 2, 2018

      Quem vos diz que ja nao a inventaram..o mundo enche os bolsos com os tratamentos que fazemos aos nossos entes queridos..e o “negociozinho” deles..sem os nossos tostoes eles ficariam lisos..isto é como a sida existe tratamento mas e caro que se farta..a nacao podia comparticipar para que fosse mais barato..mas como tudo na vida para os politicos isto e um mero NEGOCIO DE MERDA.

  • Maria Clara Antunes de Bastos
    Janeiro 16, 2018

    Julgo que o homem tem a chave! Mas o negócio de medicamentos etc… dá milhões 😬😖

    • João Francisco
      Março 26, 2018

      Eu estou farto de ouvir esse discurso, detesto a industria farmaceutica mas deixe-me lembrar-lhe.. que lucro dá um morto de cancro à industria farmaceutica? se me dissesse que um doente crónico enche os cofres à industria farmaceutica sim… é verdade mas se a industria farmaceutica conseguisse um medicamento para nos manter vivos até á velhice a vender-nos medicamentos não acha que seria para eles bem mais proveitoso?
      Não há cura porque a doença é demasiado complexa e medicina ainda nem sequer conseguiu perceber como nasce e evolui… há um enorme desconhecimento e uma enorme impotência por parte da ciencia relativamente ao cancro… isso é demagogia barata…

  • Ana Luísa
    Dezembro 2, 2018

    A mim bateu-me à porta a 7 de setembro de 2017, numa quinta-feira as 16h20m. Entrou no meu sangue. Passeou pelo meu corpo sem licença. Deixou as suas pegadas bem notórias na zona supraclavicular e no pulmão direito. Foram meses de luta. Meses de ter medo de chorar por achar que seria o fim da luta. Não chorei, não gritei só me foquei em vencer e venci…ou não, pois ele um dia poderá voltar. Depois da luta, depois da Vitória vem a dor psicológica. Aparecem oa medos, as angústias. Fiquei sóbria e consegui perceber por tudo o que passei e porra pasei por muito. Grande cabrão que me tiraste a paz, que me tiraste a confiança, desejo tanto que desapareças. Odeio-te. Sinto uma raiva imensa.

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