A falta que me fazes no Natal.

Paro o relógio. Desligo a espiral que me faz entrar naquela rotação típica. Acelerada. Cansada. Preocupada com o tudo e com o nada. Dispo a capa do ser humano corrompido pelas horas obrigatórias e obrigo-me a ser. A parar para respirar. Que privilégio este. Ponho música. Tenho um retrato teu na bancada escondido entre tachos e arroz doce. Sabe bem amontoar migalhas despreocupadas e não querer saber do tanto que falta fazer. Desfilo e danço as baladas da quadra que nos encaixam em filmes quase centenários. Mesas fartas. Famílias risonhas e unidas em memórias que perduram em molduras. Que bom é ter o teu retrato ali. A rodopiar comigo nesta pausa vivida e cantada. A melhor das sobremesas. Cheira a bolos, rabanadas e sonhos. Sobretudo a sonhos. Sinto que bates a porta. Que entras a qualquer instante com a tua presença forte, qual pai natal que enfeita a melhor das árvores. És o meu centro de mesa. Pertences aqui. Comigo e connosco. Não sei quem te levou, mas não conseguiu arrancar-te de mim, porque hoje abres e rasgas embrulhos, choras com a emoção da minha felicidade, saboreias o meu bacalhau e dizes que está salgado. Estás aqui. Como em todos os anos. Retrato na bancada e cravado entre as minhas costelas, mesmo do lado esquerdo. Estás tão apertado que às vezes dói. Mas estás. Nesta espiral de cansaço e preocupações que não o são, paro o tempo e sentas-te à mesa. No teu lugar. Nunca chegaste a ir. Não sei quem teve a ousadia de te impedir de seres meu para sempre. Quem estipulou que a saudade era uma palavra nossa. Merda para ela. Preferia não a conhecer. Se eu soubesse que a tua cadeira ia ficar vazia, que aquele natal era o último, não te tinha deixado ir tão cedo. Da mesa, da sala, da vida. Ia rasgar em pedaços milimétricos e infinitos os papéis dos embrulhos que tu sempre amontoaste para levar para o lixo. Que mania das arrumações. Haverias de lá ficar para sempre. A contar papéis e a limpar o lado sujo da vida. Da mesma que te levou.
A falta que me fazes no Natal.
Vale-me a música e o saber-te aqui. Em mim.


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