Sobre o amor de irmãos.

Quando o meu irmão nasceu eu tinha sete anos. Feitos há três meses. Ainda precisava de colo, de atenção, de uma mãe e um pai só meus. Nas cassetes de VHS onde recordamos o primeiro banho dele ou o baptizado, eu teimo em pedinchar que me filmem a brincar com as Barbies, ou a cantarolar uma qualquer música (sempre achei que tinha potencial para concorrer à Eurovisão, principalmente com as letras em inglês que eu própria inventava). No fundo, quando o meu irmão nasceu ele era uma coisa: concorrência. Dividir quarto. Dividir os meus avós. Dividir tardes no Jardim do Cerco a andar de balouço. Dividir quatro paredes. Todos os dias.

 

Esta dualidade amor/ódio acompanhou-me durante largos anos. Acho que é assim que funciona com todos. É claro que o defendia com unhas e dentes se alguém ousava meter-se com ele ou chateá-lo, porque na realidade apenas eu o podia fazer. Vivíamos os dois por entre choros, dentadas, insultos e um ódio carinhoso. Eu ignorava-o nas manhãs de sábado enquanto dormia e ele aprendeu a fazer o pequeno-almoço sozinho, porque tinha fome. Ele queimou e cortou o cabelo a todas as minhas bonecas, porque o Action Man tinha sempre que enfrentar incêndios e perigos. Eu escondi-lhe todos os Playmobil e, durante dias, não disse onde os tinha colocado. Usei isso para o chantagear com pedidos de copos de água, lenços e outras coisas tais que nos fazem falta quando estamos deitados a ver um filme. Eu ignorava-o quando as minhas amigas lá estavam em casa. Ele destruía todo o nosso quarto quando lá estavam os dele.

 

Mas, crescemos. Acabamos todos por crescer. Por amadurecer. Por sarar feridas e pedir perdão por ter causado outras. Começamos a partilhar segredos. A perceber coisas entre linhas e a não precisar de falar. Olhar por cima do ombro basta. Crescemos e percebemos que, afinal, o nosso melhor e mais verdadeiro amigo vive ali. Ao nosso lado. Pronto a roubar-nos o último quadrado de chocolate, mas a acordar connosco se temos dores de barriga. Só para ficar ali. Como se uma mera presença nos protegesse e servisse de antibiótico.

 

Ainda hoje, temos tantas diferenças que são mesmo elas que nos unem. Com a idade, as irmãs mais velhas tendem a tornar-se segundas mães. Pelo menos comigo foi assim. «A que horas entras na escola? Tens almoço? Leva um casaco.» E, temo, será assim para sempre. Eu e ele. Neste amor único que partilhamos. Ele cresceu e eu também. Acho que o nosso amor de irmãos cresceu em igual proporção. Eu protejo-o, ouço-o, defendo-o. Ele ouve-me menos, porque é um pré-adulto-adolescente-de-designação-ainda-indecifrável. É um conselheiro exímio. Tão honesto que às vezes dói. Não me passa panos quentes e tantas vezes já me disse um «Não faças isso» ou um «Não sejas assim». É menos carente que eu. Menos dado que eu. Passa bem sem beijos e abraços e tem dias em que acorda com um mau humor tão insuportável que me apetece bater-lhe. Mas é meu irmão. O meu irmão. E, juntos, somos isto. Somos unha e carne unidas e inseparáveis. Saímos sempre em defesa um do outro, encobrindo tantas vezes coisas um do outro. Sabemos que o mundo pode acabar, que pode vir a terceira guerra e que podemos ter que viver num bunker, mas que vamos saber dividir o último prato de sopa. Eu irei continuar cúmplice nos disparates, ainda que agora não sejam tão graves quanto atirar papéis com recados ofensivos para as vizinhas, e a apoiá-lo em todas as decisões que tome. Incondicionalmente. Como é incondicional este amor. Sempre. O meu irmão é isto. É parte do meu corpo e da minha essência. É saber que só estarei bem quando ele o estiver. Como uma mãe, mas das que escondem segredos e cumplicidades. Coisas que são nossas e de mais ninguém.

 

A estrada deste amor tem tantas curvas e apertos como a das relações mais profundas, porque é isso mesmo. É uma das relações mais profundas e intensas que vivemos ao longo da nossa vida. Este amor não precisa de descrições, de adjectivos, de comparações. Brota do nosso corpo. Cresce a cada nova etapa. Fortalece-se e une-se como o sangue, igual, que nos corre nas veias. Somos diferentes em tanto, mas somos iguais nisso. No sangue. E somos irmãos.

 

Quando ele nasceu eu tinha sete anos. Ele era concorrência e eu pensava «Eu não chego para esta gente?». Hoje, agradeço-lhes por serem menos egoístas que eu e mo terem dado. Conhecer este amor é conhecer um dos mais puros, genuínos e eternos laços. Começámos torto, mas, afinal, o pau torto pode chegar a endireitar-se.

 

Eu prometo preparar-te pequenos-almoços sempre que me pedires, mano. Já não precisas de fazer cereais sozinho.


Ainda não tem comentários.

O seu comentário