um amor surdo, cego e mudo.

Tantas vezes não ouvimos o que nos dizem. Só vemos o que queremos. Calamos palavras que se oprimem na garganta e lá fazem um coágulo. De sangue e dor e angústia. Há amores assim. Que nos impedem de ouvir mais. Os outros e o que nos diz o nosso corpo. Que nos impossibilitam de ver. O que é claro, transparente e luzidio. Que nos calam e nos incham de tantas palavras e frases que queríamos dizer, mas, afinal, só engolimos. Em silêncio.

 

Há amores que nada constroem, possibilitam ou acrescentam. São tantas vezes mornos. Insuficientes. Incompletos. Achamos que somos felizes, porque esperamos tão pouco do outro que qualquer carinho novo, por mais insignificante, torna-se gratificante.

 

«Foi ele quem ligou».

«Olha, tomou a iniciativa».

«Hoje até quis vir ter comigo».

«Tratou-me bem. Fiz o jantar a horas.»

«Ele é assim, mas gosta de mim ao jeito dele.»

 

Não se esperava que fosse assim sempre? Que o quisesse sempre? Que o procurasse todos os dias? Quando amamos, com o corpo, a cabeça e o coração, vivemos no nosso T2 e não deixamos janelas e portas abertas. Não entram outras pessoas que destabilizem, não entram medos e desconfianças que alimentem a tal instabilidade. Quando amamos e quando vivemos amores plenos, temos paz. Paz. Ela é tão difícil de alcançar como o verdadeiro amor e, acredito, vivem ambos lado a lado como gémeos siameses. Amor e Paz. Se um cresce, o outro é-lhe proporcional. Sem pressão, sem medo, sobretudo, sem violência. Da que deixa marcas no corpo e na alma.

 

Há, porém, amores que não se vestem disso. Que, pelo contrário, nos reduzem, nos anulam, nos ofendem e desrespeitam. Há amores que cegam. Que nos fazem mudar e ceder a um limite que nem é limite, porque é ultrapassado tantas vezes. Cabeça e coração. Pontapé atrás de pontapé. Como é que se gere isto? Como é que se equilibra isto? Como é que se foge disto? Não se esquece simplesmente porque se quer. Não se muda só porque sim. A vida é tantas vezes sinuosa e são mais as tampas das panelas que ficam tortas e não fecham, que aquelas que encaixam na perfeição.

 

É difícil. Cega-nos. Cala-nos. Faz-nos perder tantos sentidos quanto amor-próprio. E depois? Sobrevive-se como? A este amor que chegou, entrou, nos enganou, mas que continua a viver em nós? Que continua a viver em nós como um criminoso que rouba, que é condenado, mas que sai em liberdade? Sai sempre em liberdade e regressa ao lar. E continuamos a fugir, a esconder, a tapar as marcas que serão, infelizmente, eternas.

 

Não é fácil. Nunca o será. Mas não devemos, nós e apenas nós, deixar de ser surdos, cegos e mudos e saber deixá-lo na prisão? Para sempre? Saber erguer o que temos de mais precioso que, afinal, é a nossa auto-estima e autoconfiança. Chega. Chega de mordaças. Chega de deixar de ver. Chega de permitir que a mágoa se aloje no peito e lá viva, como numa casa em ruínas que tende a manter-se de pé. Tantas vezes sem força nas pernas. Há vários tipos de violência e há marcas que são como tatuagens. Das que queremos remover a laser.

 

Que permaneçam presos esses amores. Que essa sentença seja perpétua. Ninguém pode viver para sempre sem ver, sem ouvir e sem falar.


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