Mandei vir da televisão. Ou do facebook.

 

«Onde é que conheceste o Pedro?

No facebook.

Sério? Mas tinham amigos em comum?

Não. Adicionei-o depois de o ter visto a cantar na televisão.»

 

Confesso que cheguei a ter vergonha disto. Dizer assim, de chofre e sem rodeios, que tinha sido uma rede social a unir-nos, nem sei a que é que soa, mas bem não me soava. Há, ainda, um estigma generalizado sobre o «conhecermos» pessoas através destes meios. Inicialmente e nos primórdios, que eu vivi, chamavam-lhe mirc. Um nick catita, uma internet a conta-gotas, mas os encontros eram raros até porque não havia fotografia que seduzisse. O envio de uma fotografia podia demorar dez horas e, quiçá dias, se a avó se lembrasse de ligar lá para casa e ocupar a linha telefónica. Depois veio um hi5 mais moderno, mas ainda duvidoso. Já havia aquela curiosidade e adesão, mas isso verificou-se numa geração específica. O facebook é o claro vencedor. Convenceu até os mais cépticos e conta-se pelos dedos quem não o utiliza. O meu pai nunca soube o que era o hi5, mas hoje partilha estados e frases e fotografias no facebook enquanto jantamos. Isto considerando que primeiro nos criticava por falarmos “lá” com as pessoas e perdermos “tempo” com aquilo, ainda que a plantar cenouras e couves, inicialmente. O facebook é um bocado aquele miúdo tantas vezes caracterizado nos filmes para adolescentes. Meio renegado, com a cara cheia de borbulhas e a enfiar-se nas conversas a medo, mas estupidamente inteligente. No fim, todos o adoram e querem ir com ele ao Prom. Falavam mal, mas todos se renderam (ou quase todos). Empresas para publicidade. Divorciados para arranjar novo marido/mulher. Casais para mostrar que são felizes mesmo quando não o são. Ou até mesmo quando são, efectivamente. Pessoas magras e felizes no ginásio. Pessoas que passaram a ser conhecidas através dele, mandando piadas ou desfilando roupas bonitas. Tudo certo. E tudo óptimo. Quando falei da partilha pública, e opcional, da minha vida na publicação «um não ao mau-olhado» não era a nada disto que me referia. Não me referia ao facto de hoje precisarmos de partilhar coisas para nos sentirmos úteis ou da verdadeira utilidade das redes sociais. Queria, somente, passar uma mensagem de que é natural fazê-lo. E se eu o entender e quiser, faço, porque a vida é minha. Sem medos. Sem me preocupar com os juízos dos outros. A decisão é minha. As coisas evoluíram, as perspectivas e as pessoas, necessariamente, também. Ninguém é mais feliz por partilhar o almoço ou o estado gripal na internet, mas a realidade é que também só o faz e só vê quem quer. A realidade é esta e isso é inegável. Os tempos mudaram. As pessoas mudaram. As relações mudaram. Não é estranho conhecer alguém no facebook, no instagram ou no tinder. Não é estranho nem fará com que as pessoas se conheçam menos ou se amem menos, por isso. E falo de todas as relações. O facebook não me trouxe só o Pedro. Trouxe-me uma proximidade com amigos e família que não tinha se isto não existisse. Trouxe-me o retomar de conversas que acabaram há dois dias, como se tivessem terminado há uma hora, porque vivemos mais juntos e mais perto e em constante interacção. É claro que não troco isto por um lanche e um café com verdadeiros abraços e mimos, mas se não posso, fisicamente, tornar isso possível, ainda bem que existem tecnologias e redes que o fazem.

Não tenho vergonha. Deixei de ter. Deixei de achar estúpido ter conhecido o amor da minha vida através da internet e, sim, natural. Espontâneo. Cada vez mais recorrente. Continuo a achar que deve haver bom-senso, na partilha e na entrega, mas devemos ser todos capazes de perceber e assumir o que queremos ou não fazer. É uma decisão e um exercício nosso. Eu deixei de ter vergonha. E sei que há muitos por aí a sentir o mesmo, porque se tornou uma coisa tão natural como conhecer alguém num café, na escola, ou na discoteca da moda, que, convenhamos, a partir de determinada idade frequentaremos muito menos. Quantas pessoas, de meia idade, reencontraram companhia e amor, através disto? Quantas reencontraram familiares perdidos? Quantos se deram e mudaram e se manifestaram com pessoas, de uma forma que antes lhes parecia impossível? Que vergonha poderá isto causar? Que venha, então, o tinder, o facebook, o instagram, o twitter e todo o leque de coisas que unem os seres humanos. Para o bem e para o mal. Isso não implica, necessariamente, que deixemos de nos comportar como pessoas de afecto e presença. Isso não implica, a meu ver, que estamos expostos em catálogos à espera que alguém nos compre. Isto significa, sim, que a vida evolui, as relações interpessoais evoluem e negar isso é viver no paleolítico (e já nos chega a dieta!).

 

Eu conheci o Pedro através do facebook. Uma colega de trabalho tinha-o visto cantar na televisão (no antigo Voz de Portugal e que agora é The Voice, porque é mais fino) e, depois de partilhas e conversas do tipo feminino, decidimos apostar que ele nos aceitava no facebook porque precisava de votos.

 

«Adorei a tua interpretação da True Colors, da Cindy Lauper», disse eu a jeito de sedução.

«Mas eu não cantei isso. Era a Time after Time»

 

Ups. Começámos assim. Com o pé direito. Hoje não tenho vergonha, rio-me disso e assumo isso. Foram precisas algumas conversas até chegarmos a um café, mas agradeço ao facebook por existir, ou de outro modo seria difícil cruzarmo-nos. Também agradeço ao The Voice e àqueles lindos olhos verdes. Contribuíram em muito para eu ter feito esta encomenda.

 

 


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