um não ao mau-olhado.

Dizem-me: Não mostres. Não partilhes. Não contes. No fundo, não sejas tu. Não sejas feliz. Não faças. Não aconteças. Não ames. Não cries. Não componhas, nem te exponhas.

E eu? E eu faço, mostro, caminho, partilho, fotografo, viajo, como, mostro, emagreço, como mais, depois engordo, e tiro mais retratos, a mim, aos outros, ao mundo por onde passo. E amo. Com o coração, com os olhos, com o tacto.

Inveja? Medo? Que venha o mau-olhado. Que se encoste no meu ombro que eu escorraço-o, amordaço-o, mas não me deixo vencer.

Inveja-me se quiseres. Se isso te trouxer mais força, confiança, auto-estima e felicidade. Inveja-me, se quiseres, as fotografias, as viagens, o que visto, o que sinto. Inveja-me os anéis e os dedos, as ancas largas e o passo confiante. Se quiseres, inveja-me também as dores. Compete com as minhas e diz que as tuas doem mais e são maiores. Na realidade, pouco sabes sobre as minhas ou sobre o que me tira o sono. Inveja-me a casa decorada com bom gosto. As paredes cor de café onde tanto se ri, tanto amor se cultiva. Inveja-me as leituras, as sessões de cinema, as quadras dos poemas. Inveja-me o carisma, a serenidade. A piada pronta e certeira. Inveja-me a criatividade e, se te apetecer, inveja-me a carteira. Inveja-me as curvas, as do carro e as do corpo. O roupeiro cheio, os sapatos de várias cores. Inveja-me tudo. Que não sobre nada. Inveja-me a alegria, a folia, o dançar disparatado no quarto em frente ao espelho. Inveja-me a mão para a cozinha, o gosto pelos temperos e o fazer tudo de cabeça e sem receita. Sabes, para a felicidade não há receita. Inveja-me as palavras, as gravadas e as por dizer. Inveja-me a cor. Os vincos e as veias, por vezes entupidas, que não me conheces, mas invejas ainda assim. Inveja-me, também e porque tens que invejar tudo, a saudade que tenho da infância, de quem já foi e não volta. Inveja-me as qualidades e os defeitos. O cabelo de caracóis, em dias de sorte, perfeitos. Inveja-me os lábios, os dentes, as bochechas e as rugas. A maioria delas, são de rir. Inveja-me os sinais no peito e no coração. Os que marcam quem merece o que tenho e os que afastam quem não pode viver nele. Mas, tu, podes invejar tudo. Tu que nada sabes mas que tanto queres saber. Podes fulminar. Podes desconfiar. Podes, ao mesmo tempo, apreciar. Não há desdém que me mate, nem ódio que me arrebate. Inveja o rancor que não guardo de quem me magoou.

E eu? E eu continuo. Eu faço, eu mostro, eu caminho, eu partilho, eu fotografo, eu vingo.
Inveja-me por inteiro, não te acanhes. Inveja-me por completo, não tenhas medo.

Porque, sabes, eu não tenho.


Sem tags 13 Comentários 19
13 Comentários
  • ritarosapico
    Novembro 12, 2016

    É uma questão de vazio, mesmo.

    • Pedro Santos
      Novembro 12, 2016

      LoooL tal e qual… o Vazio é que faz as pessoas “terem” que partilhar para se sentirem menos vazias… Este texto é triste na sua essência, onde “Eu faço, eu mostro, eu caminho, eu partilho, eu fotografo”. Quando na realidade para nos sentirmos felizes não existe necessidade de o partilhar com o mundo, nem com ninguém, apenas viver o momento com quem faça parte dele. Ou por outro lado, a partilha significa que esse momento é um vazio, e por isso existe a necessidade de o partilhar com alguém….

    • Telma santos
      Novembro 12, 2016

      Não vejo assim… A autora decide apenas viver como escolheu.
      Não deixar de partilhar com quem ama só porque os outros vão julgar ou invejar.
      E um hino ao ” que se lixem os pessimistas… Os invejosos… Os que inventam argumentos para nos rotularem de tristes e vazios. “

      • Raquel
        Novembro 13, 2016

        Concordo em pleno com a Telma!

    • alexandra
      Novembro 13, 2016

      Deves ser mais um ressabiado lolllll

  • Vanda
    Novembro 12, 2016

    Brutal este texto, parabéns

  • Luis Rato
    Novembro 12, 2016

    Muito bom!!!! Um viva aos que não têm medo! Saudações de Luanda.

  • Ana Faria
    Novembro 13, 2016

    As pessoas têm a mania de justificar tudo com inveja. Surpresa o, muitas das vossas críticas que se levantam a quem partilha tudo e um par de botas não é inveja, é vergonha alheia, senso do ridículo. Até porque tantas vez acontece serem pessoas que ao vivo e a cores serem desprovidas de vida.. Vivemdo quase para as redes sociais. Conheço casais perfeitos no instagram Amsterdão que ao vivo não lhes flui uma conversa. E depois este texto. Quem tem muita necessidade de se auto valorizar é porque há algum desequilíbrio aí. Porque sim à partilha, sim à interacção. Não à exposição gratuita. É tão pequena.

  • Poesia-me
    Novembro 15, 2016

    Adorei!

  • dulce
    Novembro 17, 2016

    Adorei!!! também…já agora …

  • Ana Cabal
    Novembro 17, 2016

    Gostei. Até podia ter sido escrito por uma figura pública. Depois de ler os comentários percebo que o texto mais sentido ainda faz. Porque hoje em dia o participar nas redes sociais é muito mais que exposição. E o «expor-se» consubstancia-se também na participação nos textos, com os comentários. Mesmo sob a capa de um certo anonimato, as pessoas gostam de responder, dar opinião, participar. Criticar. Discordar. Gritar. É fabulosa a liberdade (e acesso a informação) que temos hoje em dia! Parece-me que há uns velhos do restelo, com certeza não tão velhos assim, mas que gostam muito de catálogos e gavetas, arrumando as pessoas em categorias do solitário ao vazio, sem nada saberem de suas vidas. Apenas porque gostam de utilizar as redes sociais. Para comunicar, partilhar, expor, o que quer que seja. Mas o julgamento é rápido.. são pessoas vazias. Ponto Final. Mas então se há vida além das redes socias, que fazem aqui as outras? Não deveriam estar tão ocupadas e preenchidas com as suas vidas?

    • Anónimo
      Novembro 17, 2017

      👏👏👏👏👏👏👏

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