Sinestesias.

Diz-me que também estás contente com as tuas escolhas. Diz-me que te consola, tanto quanto a mim, saber que me tens ao teu lado e que me escolheste para percorrer o caminho da nossa existência. Sabes o que são sinestesias? Aquilo de misturar sentidos e saborear com o cheiro e sentir com os olhos? Aquela coisa dos poetas? Eu sei, tu não és muito bom em recursos de estilo, mas é isso que tu me dás. Dás-me a certeza das minhas escolhas que começam de manhã com o teu abraço, que sabe a conforto e a esperança. Dás-me a certeza das minhas escolhas quando te vejo chegar cansado ao fim do dia, mas te sinto seguro por teres chegado àquela que é a nossa casa, murada para afastar queixumes que teimam em entrar nos dias que seguem iguais. Mas estes dias, os iguais, são vividos de sentidos cheios, de corações inteiros. Não há pedaços por colar, nem mazelas por curar. Sou eu e tu. Porque nos escolhemos. Porque nos acolhemos e nos curamos um ao outro. De domingo a domingo, por entre noites mal dormidas e outras de sono profundo. Por entre dores de barriga mensais e de cabeça que, às vezes, cegam. Por entre histórias nossas e de outros que nos fazem rir com lágrimas que turvam. Eu mais que tu, porque me rio só com os olhos e sem fazer barulho. Ouvidos, olhos, nariz. Sinto tudo. Diz-me que também o sabes. Que me sentes de igual modo. Sinestesias. Que me vês e me cheiras e me tocas, tudo ao mesmo tempo, num reflexo do que tenho e daquilo em que me transformo contigo. Mais mulher, mais madura, mais contida, mais serena, menos sofrida. Diz-me que também estás contente com as tuas escolhas e que não achas disparatados bons dias em espelhos, recados no frigorífico e pequenos-almoços tardios com flores na mesa que cheiram a Primavera. Tacto e olfacto. Sinestesias. Não me digas. Eu sei que tu também o sentes, que também me escolheste. E foi numa sinestesia. Num doce Verão, vestido de calor e com sabor a praia.


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