A Cátia.

A Cátia faz hoje trinta anos. Está na minha vida há uns quinze. Ou seja, metade do que somos hoje, somos juntas. Tem um IMC de 20 e duas ruguinhas marcadas à volta do sorriso, às vezes três. É alta, magra, embora saliente sempre que tem uma barriga herdada da mãe Célia. Tem uns braços muito bonitos, bem desenhados. É importante reparar nos braços também, e não só nas pernas. A Cátia tem sardas castanhas e pretas na cara. Pontos que a marcam muito antes de eu ter aparecido. É difícil por-lhe base e pó compacto, porque fica manchada, mas de qualquer forma ela não precisa de nada disso. Ela é bonita sem nada, sem artifícios e coisas que nos disfarçam as marcas. A Cátia é a pessoa mais bonita do mundo ao acordar. É igual com duas ou doze horas de sono. Mesmo que tenha olheiras, tem sempre os mesmos olhos expressivos e grandes, que parece que vão entrar dentro de nós quando ela nos conta uma história. A Cátia é natural, não precisa que a enfeitem. Trilha ela o caminho que quer percorrer e não deixa que ninguém a pinte ou o pinte. A Cátia só podia ser enfermeira. Porque tem este espírito de sacrifício que a faz sofrer em turnos de dezasseis horas para, no fim, sentir que ninguém dá valor ao trabalho que ela escolheu ter. Aí, a Cátia refila. Condena o mundo e a escravidão escondida que ainda existe, mas volta a picar doentes com o mesmo sorriso carinhoso com que cumprimenta os velhotes da aldeia onde nasceu. Também cresceu lá. E ainda bem. Teve uma infância feliz entre a loja e as corridas que dava, enquanto ria à gargalhada. A Cátia ri-se muito. E ri-se sempre. Mesmo quando está triste a Cátia ri. Ela tenta disfarçar o peso no peito com isso, mas eu sei quando o riso é falso, porque as duas ruguinhas dela não estão tão marcadas. É isso. Às vezes o peito da Cátia pesa, porque o coração lhe dói. Sente saudade. A mesma que ela tatuou no peito e que eu sei porque nasce. A Cátia gosta de viajar. Para crescer. E para se enriquecer. Para aproveitar a vida que percebeu ser fugaz. Colecciona lugares do mundo e preenche os espaços abertos no seu coração. Às vezes a Cátia é bruta. Não pensa no que diz. Fere os outros, mas porque também tem pequenas feridas por sarar. Camufla a dor e dispara. Mas a Cátia, quando ama, dá o corpo, a comida do prato, a alma e o coração. A Cátia é isso. Verdade. Tão crua que às vezes dói. É sofrida nos seus trinta, mas é tão rica por isso. A Cátia é filha de uma grande mãe e de um pai com quem se chateia por ser igual a ele. Mas sabem que mais? Foi também dele que herdou o coração puro. E da mãe a transparência. Que mistura tão feliz. A Cátia é minha amiga. É minha cúmplice e ouvinte. Eu ralho muito com ela, mas porque a adoptei como a uma filha. Só espero um dia, ter filhas tão maravilhosas quanto ela.Muitos Parabéns Cátia.

Que estes trinta sejam um terço do que ainda vais viver, a coleccionar fotografias e a marcar rugas, das felizes.

 


Sem tags 4 Comentários 6
4 Comentários
  • Joana Duarte
    Setembro 24, 2016

    E é mesmo. Tudo isto. Parabéns meu amor.

  • Pedro Poseiro
    Setembro 24, 2016

    Parabéns Cátia e parabéns meu amor! 🙂

  • Cátia Alves
    Outubro 10, 2016

    leio e releio. obrigada, eternamente agradecida por te ter nestes 30.

  • Sara Alves
    Novembro 17, 2016

    É tão bom conhecer a Catia! A minha cara colega! Boa descrição !

O seu comentário