De meninas a mães.

Não tenho filhos. Ainda não tive. Ainda não pensei em tê-los. Ou talvez até pense. Ou nunca os venha a ter. Ouço demasiadas vezes perguntas sobre o quando e o porquê, mas respondo-lhes sempre com um sorriso despachado que muitas vezes esconde a verdadeira resposta, que nem eu sei qual é. Não me apetece. Sou egoísta. Talvez me apeteça, mas também me apetece que ninguém dependa de mim por enquanto. Se eu não sei, porque motivo haverá quem me rodeia de saber? Há uma espécie de pressão social nisto tudo que me incomoda. Já muito se disse sobre isto, mas sinto-o. Todos os dias. Sublinho, todos os dias. Namoras, casas, tens um filho, tens um cão. Se não tens devias ter. Ou um ou outro. Mas se tiveres um filho, perguntam-te pelo próximo. Se for menina, perguntam se não queres um casal. No meio desta devassa da vida privada, que acredito na maioria das vezes não ter qualquer rasgo de maldade ou intromissão (e sempre é melhor perguntar isso que prometer cafés e jantares que nunca acontecem), sinto que vivo numa bipolaridade meio estranha, onde já nem eu sei o que quero. Será realmente altura para isso? Estou a ficar na idade? E se a idade passar? E se não os puder ter? Ainda ontem tinha dez anos e corria na muralha com os meus primos. Ainda ontem tinha quinze e estava cheia de borbulhas e a única coisa que queria era um produto milagroso que as fizesse desaparecer no dia da noite de gala. Ainda ontem entrei para a faculdade. De uma coisa tenho a certeza, este caminho de menina a mãe pertence-me. Pertence-me tenha eu ou não certezas. Queira eu ou não chegar lá.

Algumas já se transformaram. Fecharam um ciclo e começaram outro. Enchem-me de orgulho. São firmes, determinadas, seguras. As boas meninas darão sempre boas mães. A Joana que passou para a filha os castelos de princesa, as fadas dos dentes, os filmes da Disney e a mania de pentear o cabelo. A Tânia que, feliz como nunca a vi, se dedica ao nosso novo bebé com um amor incondicional e que lhe passa tudo aquilo em que acredita e que, muitas vezes, não teve (mesmo quando não dorme mais que duas horas seguidas e no dia a seguir faz cinco horas de zumba). A Catarina que nasceu para ser mãe. Literalmente para ser mãe, porque parece que fez isto a vida toda. Ou a Rita que tem educado a miúda pequena mais crescida que já conheci.

Foram todas meninas e agora são todas mães. Assim, quiseram. Deixem-nas ser o que quiserem. Deixem-me ser o que quiser. Podemos crescer devagar? Sem ninguém a correr atrás de nós?


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1 Comentário
  • fronemofobiablog
    Outubro 21, 2016

    <3 não és a única a sentir a pressão… e nós jagozas ainda vamos tendo a sorte ou o azar de só ter sido uma ou duas… talvez um dia chegue a nossa resposta, talvez não…. até lá, vamos escrevendo desabafos 😀

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