Um adeus mudo.

Caíram-me as vozes. As lágrimas calaram-me a garganta seca, que arranhava. Era como se um fosso se tivesse aberto entre a estrada que separava a minha alma e a vista que te alcançava cada vez mais pequeno. Ao fundo. E eu caí tão fundo. Profundamente. Caíram-me os pedaços, partiu-se a bola de cristal que nos previa. Que nos destinava filhos, lareiras acesas e chá quente nas mãos. Foste ligeiro, adiando o encalço, apanhando os bocados de mim que te caíam dos bolsos como moedas. Querias que te chamasse, que fizesse do meu silêncio uma súplica para ficares. E eu? Eu deixei-te ir. Merda. Cobarde. Deixei-te ir e nem voz tinha, tapada de água naquele poço sem escada. Esperei. Esperei que a água subisse e me trouxesse à margem. Que o teu corpo lá esperasse o meu e nos enroscássemos naquela sinfonia de amor perfeito. Semi-colcheias de amor. Semi, não. Inteiras. Caíram-me as vozes. Caíram e não mais se ergueram. Agora, elas escrevem-se.


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