Versos pouco livres.

A música. Aquela que nos conduz, nos arrebata, nos faz voltar a sentir borboletas no estômago, que nos impedem de comer e de dormir. Aquela que nos faz voltar aos quinze, aos primeiros concertos de gritos e rouquidão. Ao primeiro amor, primeiro beijo tímido, primeiras noites mal dormidas a construir um castelo e a plantar filhos que nunca passaram de sementes. Aquela que nos fez dançar pela madrugada com as amigas de liceu, até que uns pés por calejar, nada habituados a saltos altos, cedessem ao cansaço e o resto da noite se fizesse descalça. A música. Aquela que nos fez chorar, quando nos abalaram um coração virgem. Quando nos cravaram a faca da vida e nos mostraram que crescer dói. Aquela que é nostálgica, feiticeira com bola de cristal que lança cartas aleatórias que mostram o que somos. Aquela que nos permite conhecer a liberdade, apenas quando entra e sai sem vestígio. Mas os versos, as sílabas cantadas, cravam-se naquela reminiscência de vida e moram lá. Não podemos ser livres, enquanto existir música. Os versos pernoitam. Crescem. Com um poder irrefutável que carrega, que recorda, que prende. E que bom é estar preso a isto. Não ser livre, pelo prazer de a ouvir. A música. Aquela que dá cólicas, apertos no peito e que é amarga e doce e tudo num refrão. Aquela que faz esboçar sorrisos inseguros, que traz saudade. Sobretudo, saudade. Que nos faz querer compor poemas vestidos de momentos que foram e já não são. A música. Ainda dizem que não existe teletransporte. Com ela, eu falo em silêncio. Digo “leva-me.”


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