José Amaro.

O meu avô tinha 148 centímetros. Era tão magro, quanto pequeno. Tinha um nariz comprido e nunca teve um cabelo muito farto. Gostava de caçar e nunca se separava do seu boné à caçador, que envergava com orgulho em todas as ocasiões. Natal e aniversários incluídos. Foi carpinteiro, electricista, montava antenas aos vizinhos e era columbófilo. Tinha pombos de anilha dourada e, uma vez, comprou um furão. Era uma espécie de moço de recados da vila, conciliando os seus ofícios e habilidades com a profissão que exerceu durante anos. Prometia à segunda e só aparecia à quinta, mas aparecia. Era o segundo José Amaro da família e tinha tão bom coração como o primeiro. Era conhecido pelo mau feitio, irmão de uma impaciência que o meu irmão herdou, teimoso e de poucas conversas. Refilava porque a televisão estava muito alta. Refilava porque fazíamos muito barulho à mesa. Era sempre o primeiro a abandonar todos os almoços e, normalmente, nem nos apercebíamos de que já tinha saído. Era raro o dia em que não ralhava comigo, mas era um ralhar proporcional às vontades que me fazia e ao amor que me tinha. Não passava um dia sem me visitar. Não passava um dia sem me acompanhar nos dentes novos ou nas feridas nos joelhos. O meu avô tocava realejo. Tinha-o no bolso da camisa ao lado do pente, que ainda hoje guardo no porta-luvas do carro que herdei. No carro onde me sento todos os dias, na minha vida que continuou, e onde ainda conservo as ferramentas dele e o peluche do veado, amarelecido pelo sol. O meu avô não gostava de missas. Não gostava de funerais. Não gostava de mariquices, mas chorava quando eu desembrulhava os meus presentes no Natal e chorou quando me viu pela primeira vez. Emocionou-se sempre comigo e sempre me teve como a sua menina. Chamava-me «Canita» e, ainda hoje, consigo ouvir o tom com que o dizia. Quando, aos 8 anos, me lembrei de ter medo de ficar em casa sozinha, foi ele quem me salvou. Levava-me para todo o lado. Desde a taberna da esquina, derrubada para fazer mais uma rotunda em Mafra, à casa da Antónia que precisava de mudar duas tomadas. Eu ia, munida de Barbies, jogos do Loto e a rebentar de mimos. Nunca foi de dar beijos, mas eu sempre lhe saltei para o pescoço e o obriguei a ceder. Ainda hoje, há dias em que me sinto sozinha e preciso que ele me salve. O meu avô faz-me falta todos os dias. Deixou-me cicatrizes que vivem comigo. Não foi ao meu casamento, nem testemunha tantos dos momentos felizes que vivemos em família. Não viu o meu irmão crescer. O meu avô foi-me roubado com 58 anos. 58 Anos. Não fazia ideia, aos 17, do quão novo se é aos 58. Hoje, tenho ainda mais saudades dele. Tenho saudades dele todos os dias e não há um em que não me apeteça ligar-lhe, escrever-lhe, fazer qualquer coisa com ele ou por ele. O meu avô foi-me roubado para que me guie de outro lado. Tem feito um bom trabalho, parece-me. Continua a não passar um dia sem me visitar. E continua a usar o boné à caçador. Levou-o com ele.


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