O meu amor.

Muito se fala e escreve sobre o amor. O amor dos livros, dos filmes, dos namorados de esquina ou dos velhotes de mãos dadas. Muitas frases se citam, muitos poemas se enquadram. Mas, entre citações que inspiram, que fotografam os casais felizes ou as dores da traição e perda, nunca ninguém falou sobre o meu. O meu amor é desmesurado. É intenso e ofegante. Cansa-me, derrota-me de tão vivo. Às vezes o meu amor é preocupante. Quer tanto o bem dos que amo que me sufoca. O meu amor e o medo caminham por becos estreitos. Oprimem-se e reprimem-se. É um amor perpétuo, como a prisão. É como um crime passional, condenada que estou a viver com ele para sempre. É um amor à família, a mais chegada e a que tende a não ser próxima. É um amor aos amigos de sempre. Aos amigos de agora, que o amor me trouxe. É um amor às crianças pequenas que me chamam prima de olhos brilhantes. É um amor ao amor da minha vida, simples, descomplicado, mas que temo perder todos os dias. Às vezes, o meu amor é hipocondríaco. Age como um doente terminal. Tem neuras. Tem birras. Tem dores de barriga, de peito, de coração. É um amor tão grande que vive aqui dentro que, nos dias em que o diafragma sobe ao pescoço, sinto no âmago um pânico de entrar em pânico. Vivo na dualidade do que é gerir o amor e este tropel. Quanto mais mergulhamos no caos, mais amamos. Quanto mais intensos são os dias e as emoções, mais corremos o risco de nos estatelarmos de tão bambas que estão as pernas. O meu amor é assim. Confuso e perfeito aos meus olhos. Caminha em bicos de pés, por vezes. Noutras, corta-se em estilhaços de vidro. O meu amor é citado aqui, por mim. É irmão do medo, mas, por serem siameses, criam-se um ao outro. O que é amar sem medo? O que é viver sem morrer? O meu amor é assim. Citado por mim, no poema que é senti-lo.


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